sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Proibido

Assuntos sérios nunca me animam ou me abalam e nã há pessoa que coloque um sorriso sincero e acalme minha alma. E ainda sim eu queria você, só você aqui, você bem perto de mim, no lado incerto e errado que existe aqui comigo, só que não posso nem devo, não é certo e não é justo.
Se bem que a justiça nunca foi boa comigo. Só que não consigo pagar na mesma moeda e então eu deixo pra lá e eu tento ser justa e agora estou ajoelhada por você, estou suplicando por um pouco de vida suja que me traz e também por um pouco do alívio que vem na viagem que eu sigo para um lugar muito mais obscuro que as cavernas que existem mais profundamente em mim, apesar de que a justiça é apenas comigo nessa jornada.
Não estou em paz e não entendo porque não podem me deixar em paz, não é uma questão do que me faz ter falsas alegrias e do que me deixa miserável mas bem uma questão do que é isso para os que não conseguem me deixar. Adoraria sussurar ao mundo que seria mais fácil se me libertassem mas ao que parece, um sussuro não é escutado em lugar nenhum atualmente e além disso, estou tentando abolição da sociabilidade, o que não é muito possível.
Me prolongar é tão difícil, viver é tão complicado. E você você você, eu preciso de você e peço perdão à você e quero você você você. Dane-se o que há na minha vida, essas particularidades de mentira que digo para me distrair do mundo estão expostas por aí e mesmo assim, mesmo assim eu ainda estou aqui, mesmo assim estou aqui pedindo perdão e tudo em que penso é em você, minha destruição, você você você, eu me perdi na viagem porque ela me leva em direção à você e você é tudo que eu não posso ter.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Automático

Não sou poeta, escritora, compositora, quisá pensadora mas de repente me veio essa vontade de falar desse assunto que essas pessoas tanto falam.
Suicídio. Tem esse sufixo, parecido com vício e realmente não é uma coisa da qual se foge, você procura você quer, a diferença são os fatores, talvez, mas não creio nisto, deve ser só porque seu corpo não anseia pela morte como o seu cérebro o faz acreditar que é assim com drogas.
Não é um vício propriamente dito, isso não toma conta de você. Sua mente o faz. E então garoto, você está perdido no mundo onde os pesadelos são os sonhos bons e se matar não lhe traz medo afinal, a vida é sua e seria melhor se não fosse, não?
Pode ser porque as falsas alegrias têm fins violentos, diria Shakespeare, mas para fugir disso, só encarando que a felicidade tem de ser sincera, coisa que é rara, coisa que é triste porque vivemos em busca dessa felicidade e há pessoas que não convivem bem com ela, mesmo estando presente.
Já pensei tanto em suicídio, até que descobri que ficar tentando controlar a morte é ser controlado por sua mente insana, e então desisti porque se eu tiver que morrer, que seja quando for. Só que as vontades de passaras lâminas por mim mesma, de pular daquela altura ainda estão aqui. Estão guardadas para tempos onde terei tanta força e felicidade que esquecerei o propósito dos pensamentos de agora, desses pensamentos loucos que me povoaram uma vez e se alojaram em todos os cantos.
Quem sabe seja assim na mente dos suicídas de verdade, esse fracasso, essa besteira, insuficiência. Seria melhor se eu não estivesse aqui, disso eu tenho certeza. Mas há certas coisas que não devem ser questionadas, e é mais divertido e também esclarecedor divagar comigo mesma sobre uma morte por vontade própria.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Olá eu

Ódio e lágrimas engolidos, punhos e maxilar cerrados, cérebro, coração e respiração ritmados. Não é ruim, porque eu não mereço coisa melhor que isso. Mas não é bom do modo que eu preciso, de um modo que o rancor não exista assim como a raiva e do jeito que eu possa viver normalmente, não tentando controlar tudo.
Eu chamo de rancor. Isso aqui, esse desejo imoral de todos morrerem e eu ser a primeira, essa ignorância, o meu silêncio e desdenho diante de coisas as quais já me acostumei, as quais não fazem mais sentido mesmo que nunca tenham feito e também às que me enjoaram. Não sei porque tenho isso e não gosto de culpar os outros por isto. Sou eu. Rancorosa e ridícula. Eu.
Se me quiser estou aqui. Rancorosa e ridícula. Estou, sempre estarei, é só ter paciência e você consegue algo. Pa-ci-ên-ci-a. Se não me quiser tudo bem, eu nunca vivi por isso chamado platônico e apesar de achar bonito, não sei se conseguiria.
Toco-me constantemente, estralo os dedos, cruzo e descruzo as pernas, abraço à mim mesma com os braços, passo os dedos pelo pescoço e também pelo que tenho no rosto. Eu sinto porque não me encaro no espelho, não me vejo ali, não mesmo, como se o sorriso infantil, os olhos cansados e sinceros, as maçãs salientes, as sobrancelhas espessas e todo o resto não me pertencesse, como se fosse uma grande máscara que eu não possa tirar. Queria ao menos uma máscara bonita, mas já que o que escondo é tão rude e sujo, eu aceito, eu aceito qualquer coisa.
Eu aceito que o meu mundo desabe a cada segundo e a cada olhar e também a cada toque, eu sei que mereço, é o sentimento predominante em mim, conformismo. Me conformo porque eu não quero mudar agora, então aceito. Eu mereço. Mereço esse rosto de adolescente e essa carência de mulher, mereço cada fio de cabelo loiro e notas satisfatórias mas não ótimas, mereço que tenham medo de mim e também que esqueçam. Esqueçam-me, a medrosa da história sou eu.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Tirando o pó

Quero que sintam como eu sinto.
Quando alguém tocar tua nuca com os dedos frios, quando alguém olhar pra ti e sorrir como criança, quando alguém estralar os dedos, quando alguém pular em você, quando alguém dedilhar uma música no violão, quando alguém sussurar, quando alguém mexer no teu cabelo, quando alguém gritar bem alto uma frase sem nexo, quando lembrar de filmes infantis, quando assistir Juno ou John e June, quando alguém for muito masculino.
Preciso disto. Do carinho, dos toques, dos beijos, dos cheiros, dos sorrisos, dos olhares, do silêncio. Preciso. Os pedaços do meu coração ficam com mais aparência de um a cada vez que fecho os olhos, lembro e elas descem pelas bochechas.
Eu as deixei vir, as deixei inundar meus olhos e rolarem pela face, as deixei lavar as coisas ruins e marcar as boas e logo, elas se trancarão de novo. Por enquanto não cessam. Sinto como se não fosse desabar, pois já sou as ruínas, sinto como se fosse um transe, para a volta, para reviver a maldade real. Para voltar a ser. Real e má. Com boas lembranças no quebra-cabeça que é o coração.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Hoje

Não sei o que desgasta mais, se é a dor que eu causo ou as palavras que atingem as dores, não compreendo mais nada. Fico seguindo em frente, acordando a cada dia, comendo alguma coisa, pensando em nada e assistindo desenhos para me distrair e então, chega qualquer um, com quaisquer dizeres e esses me levam às lágrimas, me levam à raiva e logo às promessas de que vou me afundar de novo. E logo, um novo dia, um novo delírio, um novo desgaste.
Como se não bastasse meu coração levar o sangue à cada ferida nova e velha em cada pulsar forte e sacrificado, as que ainda não cicatrizaram só doem mais e as que já cicatrizaram não me deixam esquecer que existiram, com a cor e a textura diferente do resto da pele. Minha pele é meu manto, é minha imagem e minha máscara. Você nunca saberá nada de mim além de que tenho uma bela aptidão para ser atriz.
Eu só queria para de ser tão fraca, tão fraca a esse ponto. Eu só quero que tudo pare, o tempo, a vida, o meu ar, eu me viro depois, eu sempre acabo me virando, com ou sem pessoas eu ainda estou aqui, com ou sem conselhos eu ainda estou aqui, com ou sem razão eu ainda estou aqui. Só precisava que entendessem e me deixassem sim, me afundar nos cobertores todos que deixo jogados na cama porque me dão um conforto que talvez eu nunca tenha, que me permitissem viver de água e também, parassem de insistir, parassem de dizer o que dizem porque eu sei o quão difícil é ser esse parasita, esse peso morto, esse livro em branco, essa ferida imensa e intocável, não é complexo de inferioridade, é realismo. E eu sei que sou realista, porque mesmo sendo um nada ainda tento compreender as coisas que se passam, e mesmo caindo cada vez que tento respirar eu continuo. O ato de continuar é digno, é verdadeiro e rotineiro, não glorificando-o, é somente bom. E seria útil se eu ainda fosse algo.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Meu

Tentando viver como dizem "normalmente" e cansando cada vez mais cedo. Cada despertar é exaustivo e cada sorriso forçado um pedaço de insanidade se espalhando pela cabeça. Que merda estou fazendo, o que eu quero fazer, voltarei pra você minha pequena obsessão e então ficará tudo bem, tudo lindo e o vazio aqui dentro cada vez maior e penetrante, cada vez mais profundo e cortante, cada vez mais vazio. Aprecio o vazio, é único. O meu vazio me salva dessas tentativas tolas de me ajustar à realidade e me traz de volta a busca por aquilo que não posso ter, o meu vazio é meu aconchego, simplesmente porque ele sou eu.
Me tornando o vazio eu posso controlá-lo, ou ter a fantasia de que faço isso. Seja como for, estou bem, vou ficar bem, só preciso de um pouco mais de vazio, só um pouco mais, isso, mais um pouco, acho que não é suficiente. Acho que eu poderia ser muito mais vazia mas o fracasso me impede, ele se aloja na minha mente e fica ali, me impedindo de ser vazia.
Pra mim o vazio é branco, preto, cinza, cintilante, fosco, macio, áspero e todos os paradoxos que podem existir, ele é algo que se torna adaptável à qualquer coisa, ele é algo inexaurível e que tem um preço caro, é um ídolo meu e um objeto já existente. Queremos sempre mais e mais, e eu só quero um pouco de vazio olhe só, é um coisa tão pequena contando com os desejos dos outros, repare bem, é só um pouco de vazio. Um pouco de nada não faz diferença, não para vocês, só que para mim é bem mais complexo então eu só preciso de um pouco mais dele para entender bem, ou talvez eu prefira não entender, talvez eu só queira nadar nesse vazio até que de algum modo eu consiga me afogar.
É só vazio, eu sou o vazio, eu quero mais do vazio e só preciso do vazio, não é muito complicado. Só um pouco menos e mais, só um pouco do que ninguém valoriza, só isso, esse vazio. De qualque modo não vou mais tentar ser comum ou razoável, cansei, de fingir que tudo normal me agrada, que ainda há esperança para mim e nada mudou. Me tragam de volta o vazio que hoje eu preciso esquecer e lembrar.

II

Não há mais verdade no que ela chama de vida, nem um pouco de sinceridade dos que ela chama de família e amigos, e tudo que ela precisa é de algum tempo desperdiçado com palavras, as palavras simples e fortes que alguém poderia sussurar perto dela. Ela tem aquela fragilidade enrustida, aquela fraqueza que se esconde atrás de ignorância e vai sumir, vai sumir um dia, quem sabe, talvez, pode ser, ela não sabe, ela não quer saber. Alguém diga a ela o que fazer para ela fingir que não escutou e então fechar os olhos e respirar, e expirar e inspirar, várias vezes. Não deseja um cheiro ou um olhar de pena, ela quer um abraço e um 'vai ficar tudo bem'. Na verdade nem isso quer, ela quer só para ignorar, ela quer só para virar para si mesma enquanto observa as cores por aí e pensar que é forte, que pode.
Não a procure, não a deseje, não a acalente, ela não é capaz de receber quaisquer que seja o sentimento além dos ruins, ela os costura calmamente dentro de sua cabeça e os transforma em desespero, um desespero sem igual, o desespero que a fará arrepender-se para sempre, tido que o sempre é apenas a vida que levará durante esse tempo que ainda tem, só contando que será daqui alguns bons anos.
Ela não vai parar, ela prefere as pequenas satisfações ilusórias de agora, ela prefere ter no que pensar, ela prefere pensar no que não a levará a nada do que tomar alguma decisão. Ela percebe que é mal, que é má, ela não se engana quanto à isso, ela só se engana quando há saída.

sábado, 10 de julho de 2010

Breve

Queria sumir às vezes, parar de perceber as coisas tão tarde, me libertaria de uma grande e cansativa luta contra mim mesma, essa luta que eu não vou ganhar e tenho consciência da derrota. Ou não, eu nunca estive tão pra baixo assim, sempre vou pensar desse modo. De repente quero engolir o mundo pra tentar curar o grande pedaço de nada que fica, enroscado nisso que eu me tornei e depois me sinto tão culpada que preciso ficar limpa por três, quatro, cinco dias. Eu fico feliz de ter algo pra preencher e logo me descontrolo, logo deixo que o falso controle corra das minhas mãos para o meu instinto e eu acabo assim, perdida e esperançosa que amanhã será um novo dia.
Não me reconheço mais, não posso ver o que eu conhecia, eu não me sinto como algo que seja, algo coerente que transporta vida pelo gesto e transborda idéias pela fala, eu me perdi aqui dentro, dentro dessa incabada pessoa que sou e não quero achar, olho para isso e vejo olheiras, vejo longos fios pela nuca, vejo sardas e alguns ossos, mas ao que dou importância não vai ser transmitido por esse toques e minutos na frente do espelho tentando encontrar a mim.
Força. Para não encarar o espelho de medo, para andar por aí cheia de dores e rancores, para mentir que estou bem, para passar cinco dias sem comer, para olhar nos olhos de qualquer um e dizer que estou feliz. Bela força, bela e autodestrutiva.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Aceitando

Ela realmente sabia o que ele tinha em mente, ela não só sabia, como correspondia, e achava que era algo que abdicar seria burrice. Não havia um motivo concreto para ela desistir, apenas motivos reais para que ela continuasse insistindo, mesmo que no fim não desse nada. Anne apenas conformou-se com a história: os dois melhores amigos estavam tendo sentimentos a mais do que deveriam, mas aquilo não era errado; mais uma experiência para os dois.
Foram à escola no mesmo dia, comportaram-se normalmente, não houve nenhuma suspeita ou desconhecimento de parte alguma; os colegas eram os mesmos e sequer se importaram em ver os beijos, já estavam acostumados. Na volta para casa, não foi muito diferente, as reações foram nulas.
Com o mesmo pretexto de estudar, Anne passou as últimas horas do dia na casa de Alex, enquanto a mãe dele estava fora, para ficarem juntos mais tempo. A serenidade daquele dia foi embora no momento em que pisaram no quarto de Alex.
- Gostei - jogou-se na cama e deixou suas saias subirem; há quanto não queria fazer aquilo! Tirou os sapatos - Sente-se comigo - e um olhar malicioso sai daquelas castanhas amarronzadas.
Ele andou, também tirou os sapatos, sentou-se ao lado dela.
- Está diferente hoje - ele sabia o que dizia, sabia o que ela queria e o que estava fazendo naquele momento. Ah, se algum dia ela descobrisse o quanto ele sabia dela, eles só precisavam de olhares.
- É claro - pousou a mão dele em sua coxa. Havia algo naquela garota simples de treze anos que a fazia ser irresistível, nem ele conseguiu controlar-se.
- Tem certeza de que quer fazer isso Anne? - não era exatamente uma privação, ele também queria, mas odiaria levar culpa de persuasivo no final.
- Sim - um olhar fundo nos olhos dele, uma palavra dita calorosamente e pensada várias vezes, uma decisão que mudaria tudo.
Em pouco tempo, todo o rumo daquela amizade mudou. Os beijos e carícias começaram, surgiu o momento "como tirar todas estas roupas" e enquanto faziam isso, nada além daqueles minutos se passou pela cabeça de cada um.
Os beijos foram gradativos, evoluindo após um tempo, para os carinhos nos lugares de objetivo, junto com o desconforto por nunca terem feito nada assim, mas, tudo que não era bom, foi escondido para que aquilo fosse relembrado com um sorriso, não com gargalhadas.
Enquanto mantinham as bocas juntas, inclinaram-se e, nesse momento, Anne falou.
- A porta.
Ainda estava aberta e, num pulo, Alex levantou-se e fechou-sa, mas logo voltou ao que fazia antes. Anne, deitada na cama, meio que apoiada nos cotovelos, ele andou em direção a ela e deitou-se entre suas pernas, os dois não estavam completamente nus ainda, tanto que tudo que vem antes continuou por algum tempo até que o ato fosse consagrado.
Moviam-se tão tranquilamente que mais lhe parecia um caminho, mas não estavam nem no meio dele e precisavam continuar. Lentamente, Alex enganchou seu dedo médio e o anular do lado direito da calcinha de Anne, num movimento automático e, Anne o correspondeu, levantou a bacia, de modo que ele conseguisse tirar a última peça que lhe faltava no corpo; e assim ele o fez, levantou um pouco seu corpo para que ela conseguisse quase encostar os joelhos e arrastou o pedaço de pano pela pele lisa até os pés, onde deixou que ela fizesse o resto.
Nesse mesmo instante, tirou a mesma peça que lhe faltava no corpo, e Anne só percebeu quando ele a olhou com uma pergunta nos olhos, aguardando uma resposta como só ele sabia fazer, ela, assentiu.
PS: A história de Anne fica inacabada até inspirações e continuidade maiores.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Os deveres de uma rainha

Era a única garota do grupo e era tratada com um respeito que nunca se vira desde que existiam as freedom. Como era a única a não ser convidada, nem era penetra, até na escola as outras meninas tentavam amizade com ela, porque ela conseguia meninos, drogas e desculpas muito fácil, era como uma rainha, e gostava muito desta denominação.
Já era tarde numa noite de maio, e Anne estava prestes a voltar para casa. Entretidas em outra dimensão, Stelle entrançava o cabelo de Anne e as duas riam sem motivos. Em poucos minutos de risada e entrançamento, Stelle virou-se frente a frente à garota e fitou-a por um tempo, sem expressão nem gestos, o que deixou Anne complexada. Em segundos, todos haviam de voltado até as duas e uma roda havia se formado, Stelle beijava Anne calorosamente, e ela correpondia, de um modo muito mais sujo e masculino, o que entreteu a última meia hora da festa. Excepcionalmente, depois de se beijarem, Anne não avançou, foi Stelle que passeou as mãos por Anne e beijou-a até a barriga, no momento em que Alex agarrou Anne e a tirou da cena de que todos estavam participando, mental ou fisicamente.
- Vamos.
O puxão fez o seu ombro esquerdo estralar, já que a altura do sofá em que se encontravam e a altura de Alex eram muito diferentes, sem contar a força do amigo. Anne compreendeu o que Alex sentia e como estava fora de si, discutiu, mesmo que não houvesse sentido algum.
- Não tem de cuidar de mim - a mão direita arranhando a do amigo, ela gostava daquilo, a dor do aperto, mas tinha de atuar.
- Se eu não fizer quem faz? Você? - riu ironicamente.
- Eu não preciso de você! - não gritou, exclamou tão fortemente e em voz tão inalterada que Alex quase se convenceu de que ela estava sã, logo retirou a suspeita - Eu quero tudo que há de bom, e se eu posso ter, esqueça-me, não me mudará.
- Não é isso que eu quero, não vou perder meu tempo, - soltou seu braço e pegou em seu pulso - receio que daqui vinte minutos sua mãe acorde, quer levar outra bronca? Seria muito para três dias.
Acabavam de entrar na Rua Edis, a rua da casa de Anne, que saiu correndo, mas foi presa pela mão de Alex em seu pulso. Mas que droga ele estava fazendo? Como ele poderia prendê-la se haviam apenas vinte minutos para ela entrar em casa, subir, trocar-se e esconder as roupas? E o mais importante, teria de fazer isso sem acordar ninguém. Alex estava totalmente fora de si, Anne pensou.
Mas não era isso, ele tinha exata noção, havia ligado para Jemima e dito que Anne havia dormido em sua casa, porque ficaram estudando até tarde e, como Jemima gostava muito de Alex, não se importou. Alex prometeu que levaria Anne à escola e passaria para deixá-la pegar roupas novas em sua casa meia-hora depois que ela acordasse. Como se houvesse dormido.
Alex explicou tudo à Anne que se sentiu burra, mesmo não se lembrando depois.
- Você não me odeia, então? - o rosto dele era uma incógnita, por isso Anne perguntou cautelosamente.
- Não, Anne - calmo, respeitoso, no mesmo ritmo da caminhada.
Anne não sabia o que dizer. Foi uma tola, uma criança e tudo que queria era se desculpar, mas, como John, Alex não aceitava desculpas, ele gostava muito de Anne para submetê-la a isso. Dez metros para chegar à casa de Alex, Anne para. Olha para seus braços, as frases e furos, olha para Alex.
- Você sabe, eu não controlo mais - e lágrimas desceram pelas maçãs de seu rosto, mas sem soluços, lamentos a mais ou gemidos. Somente, lágrimas.
Alex olhou impressionado, em algum lugar de Anne, havia arrependimento e de seus olhos, incrivelmente, saíam lágrimas. E agora, quem estava sem fala era ele. Por um momento, ele desejou que o Sol não estivesse raiando e que ali eles pudesem ficar sentados, sem que ninguém atrapalhasse um simples abraço. Afinal, o que eles tinham juntos era um afeto imenso, eles eram melhores amigos, descobriam coisas novas juntos e sentiam-se parte um do outro, e naquele momento, tudo isso foi testado.
Um toque leve nas bochechas dela, o polegar dele tentando consertar tudo que não havia quebrado ainda, uma inclinação ligeira e um beijo. O beijo foi como se fosse o primeiro dos dois, um recomeço para a amizade, que teria muito mais do que isso. O choro cessou e eles ficaram ali, a poucos metros de distância da casa que acolheria Anne, com o Sol nascendo e o carinho exalando. O compungir dela e dele sumiram e assumiram a forma de amor mais puro que os dois jamais provarão novamente, uma forma que não era explícita nem os intimidou, a forma de amor que os deixou aliviados de estarem juntos.
O beijo também cessou, e sorrisos leves tomaram o rosto de cada um. A mão de Alex passou do pulso para a palma de Anne e andaram até a casa dela, espaçadamente e refletindo sobre tudo. Quando chegaram, Jemima os recebeu bem, Anne trocou de roupa em seu quarto para mais um dia de frio em Achelo enquanto Alex a esperava na mesa da cozinha, com um copo de café.
Anne vestiu um jeans escuro com um suéter braco por baixo de um preto, juntou os cabelos num rabo com um elástico e sequer trocou de sapatos, lavou o rosto, as mãos e o pescoço, escovou seus dentes e desceu o mais rápido possível para juntar-se a Alex. Pegou um copo velho, colocou café, juntou os materiais e saiu.
- Vou mais cedo mãe, quero estudar para umas provas - e saiu sem ouvir resposta.
Andaram de mãos dadas até a escola, e lá, sentaram-se e Anne, mais sóbria, começou:
- Eu não vou pedir desculpas, você fez o que deveria, obrigada. Acho que o respeito é mútuo então, o que aconteceu ontem, antes do final, não aconteceu, tudo bem? - ela reprovava a si mesma na frase antes da que a fez acordar, mas, não haveria modo nenhum de pedir desculpas. Tirou essa palavra do vocabulário há muito tempo.
- Só quero que fique bem, importo-me contigo. Não me decepcione outra vez, dói. Mas não de um modo bom, de um modo monstruoso, que você nunca conhecerá - não sentiu-se ofendida, mas foi como um insulto à ela. Ele mostrou tudo que ela tinha medo: cuidado.
Ele gostava dela o suficiente para levar uma bronca da mãe por ter passado a noite fora mas, o que fazer? Em uma semana ela não teria mais os seus inocentes treze anos e sim, quatorze como ele. Então, estariam livres, na mesma classe da escola, na mesma faixa etária e com pais que os queriam juntos. Anne tinha medo disso. Tinha medo de quaisquer outras intenções dele.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Despertar

Poucas foram as vitórias de Anne, se conseguiu se safar das drogas você pode imaginar, mas se há uma coisa da qual ela não conseguia fugir era dos fracassos. Não se sentia bem, sempre havia uma desgraça, mas como ria da vida alheia, se dava ao direito de sofrer. E não só quando era preciso, mas quando podia ser só um divertimento.
Facas, compassos, tesouras, farpas de madeira, vidro, unhas, dentes, O que ela gostava mesmo, era da dor. Seja ela qual fosse, se satisfazia tendo ardência, pontadas ou cortes; consideravam-na sádica, porque, qualquer que fosse o motivo, ela ria, e dava gargalhadas diante do sorimento de qualquer um, diante de seu próprio sofrimento, diante da vida e de suas derrotas.
Numa manhã, duas horas depois de ter voltado de uma freedom, sua mãe entrou no quarto e viu junto à cabeceira da cama, um canivete e um cigarro. Anne nem havia acordado quando a mãe começou a gritar.
- Eu nunca, nunca mais te dou liberdade sua cadela! Como pode? Não te eduquei assim, levante-se agora!
Anne despertou. Sentou-se na cama e ouviu os gritos da mãe, sentiu as palmas dela em seu rosto e chorou fingidamente; ela gostou da bronca, mostrava a todos que não era perfeita e que naquela casa, pelo menos, iriam se importar mais com ela, pois estariam cuidando de sua saúde.
- E que merdas são essas? - a mãe levantou as mangas da menina, palavras sujas e frases mal escritas em seus braços - Você perdeu a cabeça garota? - um tapa - Veremos agora - Jemima sai, vai até a cozinha.
Mexendo no armários de produtos de limpeza, ela parou e refletiu sobre o porquê de tudo aquilo. Lembrou-se de sua adolescência, quando também tinha seus vícios, pensou ser hereditário. Procurando mais um pouco, encontrou o que queria no fundo do armário; pegou a garrafa e um guardanapo numa cadeira, subiu as escadas calmamente. Não queria perder a paciência naquele momento, já havia desperdiçado o suficiente. Entrou no quarto e Anne permanecia sentada, não olhando mais para o chão, agora estava tentando rasgar novamente as cicatrizes da frase "believe in me, as I believe in you", no braço direito, exatamente onde a mãe esfregou o pano que tinha molhado no álcool puro.
- Mãe!
Gritou e contorceu-se, mas a sensação era boa. Um tipo de rasgo a mais, como quando eram feitos e logo após encostados em algum lugar, uma penetração no machucado que a fazia delirar, mas não era melhor que as drogas. Ela conteve o riso, mas aquilo lhe mostrava que era mais forte que pensava, que a dor a alimentava. Alimentava tanto que ao esfregar mais algumas vezes, a própria mãe se impressionou com o resultado do álcool na menina. Foram quatro as vezes, nas quatro frases, quinze palavras.
Jemima continuou no braço direito, subiu um pouco, para perto do cotovelo, onde havia "keep rocking" e Anne gemeu, mas não de dor. Escondeu o rosto, logo após e sorriu, com todo o ardor movendo-se pelos seus cortes e descendo até as feridas camadas de tecido, aquilo era esplêndido. Não conseguia crer na força daquela substância nos seus ferimentos e quis que não acabasse.
O braço esquerdo, nele havia "I just want satisfaction" e "fuck", foi o melhor braço. Na primeira frase, a mãe umedeceu mais o pano e a dor foi mais profunda, apesar de não ter sido tanto porque a inscrição estava lá fazia mais de um mês. Mas "fuck" fez valer isso. Ela tinha escrito isso na mesma noite, então, ainda havia manchinhas de sangue na palavra, o álcool estava gelado e Anne a ponto de dar gargalhadas. Quando o tecido embebido no álcool tocou sua pele, tudo se transformou. E veio o susto.
- Mas que mer... Menina!
O grito da mãe não mudou nada, Anne teve um orgasmo. Um pouco irreal, por ter sido só com a dor, mas Anne experimentou um desses, mesmo sem sequer ter tocado alguém. Ela caiu na cama, logo após cinco segundos de fricções em seu "fuck" e suspirou, de novo e de novo. A mãe, indignada, saiu do quarto e Anne ficou ali na cama, olhando para o teto, rindo e ofegante. Nem ela entendeu o motivo daquilo, mas achou ótimo. E começou a se cortar mais.
Foi à escola naquele dia, mas após pedir desculpas à mãe e prometer não tocar mais em drogas, Anne era a mentirosa. Pela primeira vez não escondeu as frases na escola, foi de bermuda e uma camiseta de manga curta, todos viram os cortes e arrumou novos amigos com eles. Descobriu-se que não era a única, que já tivera casos de uma noite com alguns colegas e que por mais que tentasse, não conseguiria parar. A partir desse momento, Anne nunca mais voltava de uma freedom sem experiências novas, o seu grupo era o mais popular das festas e, consequentemente, criuou-se a hierarquia.

terça-feira, 6 de julho de 2010

O físico de Anne

E como era bonita. Havia crescido durante a adolescência, media a mesma altura de John, era magra, mas bem distribuída. Comecemos do fim.
Os pés de Anne eram esculpidos com o molde dos deuses, uma relíquia que vivia dentro de tênis vellhos, com doces traços e até, veias à mostra. Então vem as pernas de Anne, pelas quais qualquer caboclo aceitaria morrer, apenas para tocá-las; eram as mais perfeitas que esse mundo já criou, bem desenhadas, com curvas onde deveriam ter e longas. Anne era uma das garotas que tinham as pernas mais longas da vizinhança, e gostava disso.
A garota não tinha muitos seios ou ancas, mas o pouco que havia, era bem curvilíneo, divididos corretamente naquela silhueta fraca. Seus músculos eram poucos também, mas bem definidos para uma menina de 13 anos, ela gostava de exercícios e seu corpo sofria as consequências.
As mãos. Grandes, com dedos longos e tão secas que se viam os nós dos mesmos, mas isso não a interessava, lhe agradava. Raramente pintava suas unhas, e quando o fazia, sempre havia cores. E por fim, o rosto.
Ah, seu rosto. Era de um oval perfeito, uma peça de porcelana moldada com toda a gentileza desse universo, com doces e sutis maçãs, logo abaixo dos olhos profundos e negros, os que sempre parecem estar penetrando na alma de qualquer um; eram moldados por perfeitas sobrancelhas e alguns fios de uma franja mal arrumada que tomava sua testa toda quando solta. Sua boca era de um sangue intenso, perfeitamente desenhada, desejada e, quando se abria em sorriso, haviam as lendárias covas em suas bochechas, que pareciam macias e suculentas. Tudo era coberto por um manto negro de fios bagunçados que lhe tomava conta da cabeça, assimetricamente, pelo fato de que o ocorrido com a navalha era praticado propositalmente dali em diante.
Assim eu defino o corpo de Anne.
Já a alma, essa é bem difícil de descrever. É como se ninguém fosse suficientemente capaz de tê-la tocado, então, explicá-la, é uma tentativa em vão de descobrir um segredo que não se revela desde que o mundo existe.
Portanto, desafio quem quer que se ache apto para descobrir, que desvende a mente de Anne.

sábado, 3 de julho de 2010

Sedativos

Uma semana depois da felicidade toda, Anne conheceu as drogas. Não as de inalar, mas as de injetar e os cigarros. Ia à festas de noite, quando enganava os pais e, lá, consumia todas que podia. Até chegar em casa, passavam-se as oito horas de sono e como estava agitada demais, dormia apenas à tarde, depois da volta da escola.
Johnny notou seu comportamento novo e supostamente, foi conversar com ela.
- Qualquer coisa à qual esteja se envolvendo, abdique - o olhar era tenso, rígido, mas cauteloso.
- Desculpe-me? - se havia uma coisa que sabia fazer era mentir. E fez jus à sua habilidade.
- Eu não sou bobo, Anne. Mas a escolha não deixa de ser tua - a voz era mais calma, como um conselho. Não que deixava de ser um, mas, numa esperança tola, ele acreditou que aquilo faria alguma diferença. Num toque sereno, segurou a mão da garota, fazendo-a olhar diretamente aos seus olhos - Não espero que me obedeça, é só um aviso. Você sabe que tenho conhecimento, não faça disso uma coisa insignificante.
Por segundos, não mais do que isso, Anne reconheceu aquele olhar. Ela o recebera pouco tempo antes, no beco, quando estava atrás de seu irmão: o olhar do zelo. Ela realmente quis respeitar aquele olhar, a ternura em forma de ato, quis tratá-lo com toda a importância que ele a tratava, quis dizer o que sentia e chorar no ombro do irmão mais velho que lhe dava uma salvação da qual sempre se lembraria, sim, ela queria que o carinho todo que viu se manifestando naqueles olhos marrom-chocolate que via através de fios simples de cabelo, queria que aqueles simples segundos fossem revividos e salvassem sua vida. Mas agora, era tarde demais para pensar nisso.
E o momento se foi. Durante toda sua curta vida, Anne sentiu-se arrependida de não ter escutado John, e era sempre disso que lembrava a cada trago ou furo. Aquelas mãos macias envolvendo as suas até os pulsos, aquela voz doce e amadeirada, aquele olhar de proposição, a expressão de carência; carência porque era tudo aquilo de que ele não precisava, e ela insistiu no erro, mesmo sabendo que era necessário a ela mesma.
- Eu não tenho nada a dizer - seca, fria e calma, como uma boa atriz. Tanta leitura a ajudara com interpretações e, mais uma vez, pôs um de seus talentos em prática.
- Tudo bem - ele se retirou.
Ele. Se. Retirou. Deu-lhe as costas, não insistiu, não a fez jurar que não faria de novo, não a agrediu. Apenas saiu andando. Aquilo doeu mais em Anne do que todas as seringas que perfuraram sua pele naquela noite. Ela sabia lidar com tudo, entendia de tudo, compreendia até as pessoas; e fez sua escolha. Não era uma escolha muito boa, aliás, era péssima, mas foi o que ela escolheu. A decisão que tomou após uma ajuda, um bom-senso, que lhe deu o direito disso, e ela rejeitou. Era conspícuo que ali havia algo errado, mas isso ela notaria depois.
Mais tarde, com sua jaqueta no corpo, pulou a janela do quarto, como fazia sempre. Saltava pela janela e agarrava-se à jabuticabeira, descia por entre os galhos e partia em direção a qualquer outro lugar. Ela saía sempre após os pais dormirem, sabia a hora exata deles deitarem e cronometrava os minutos até que caíssem no sono.
Por meios de segurança e por esperteza dela, nunca usava a jaqueta vermelha em público. Vestia qualquer casaco velho que via em sua frente à luz do dia, mas nunca a sua jaqueta. Ela havia guardado para usar justamente em ocasiões festivas, às quais chamava de freedom. As freedom eram as festinhas secretas que havia pela vizinhança de Achelo e outras, à qual Anne sempre comparecia e consumia drogas. Como nas ruas em que passava ainda era conhecida, usava o cabelo preso e a jaqueta, um jeans que havia tingido de preto, All Star e a primeira camiseta que encontrasse, assim, se algum vizinho a visse, pensaria que era apenas mais uma vicciada, o que não deixava de ser verdade.
Passos longos e rápidos, bolsos a ponto de rasgar, cigarro nos dedos da mão direita e postura curvada, de modo que não conseguissem ver seu rosto. Era como definia a si mesma andando pelas ruas de Achelo, numa noite em que refletiu sobre sua vida até aquele momento, poucas semanas depois de começar a se sedar.
A definição era essa: sedação. Nunca vira como uma coisa ruim, que a mataria e lhe deixaria totalmene dependente; pensava nas drogas como em remédios calmantes, que a levavam para lugares aos quais ela nunca tinha visitado. Lugares que a acalmavam, como sucos de maracujá; lugares que a levavam ao delírio, ao riso, com tantas cores e formas; lugares que eram inimagináveis e soavam como canções. Canções que a faziam sentir-se livre de toda a pressão que sofria quando estava na escola, de todas as brigas em casa, de toda a timidez de Alex. Se sentia uma garota rica viajando pelos mundos, pelas galáxias e pelas constelações; conversava consigo mesma e se sentia incrivelmente coerente, era uma das coisas que a consagravam como uma dependente louca e como uma viciada feliz.
Em uma dessas viagens, cortou seu próprio cabelo com uma navalha, por pouco não arrancou um pedaço de seu nariz; acabou voltando para casa sem a jaqueta no tronco, mas na cintura, junto com os braços que nunca se lembrou de quem eram e também com um violão, que aprendera a toca com alguns amigos e escondia no sótão, onde ninguém podia ver.
Conseguir as drogas era, relativamente, fácil. Normalmente, seduzia qualquer garoto com uma higiene e beleza razoável e os convencia a "experimentar" com ela; nunca achou muito difícil, era dotada de beleza

O estado animado de espírito

Johnny chegou estupidamente sorridente em casa, junto com Anne. Era junho de 1983, o diálogo que havia passado era esse:
- John... Queria te contar uma coisa - abaixou a cabeça, incrivelmente, saiu um riso de seus doces lábios juvenis.
- Pois conte - seus olhos mantiveram-se vidrados à rua, alguma coisa havia prendido sua atenção.
- Eu não sei como dizer... Lembra-se do Alex? - levantou o rosto sugestivamente.
- O de cabelo preto, olhos claro, não é? O que te persegue sempre - finalmente a face do irmão havia se voltado a ela. Sentiu-se aliviada, conseguira prender atenção dele, só lhe faltava a coragem.
- Nos beijamos - os tropeços nas palavras a levaram a dizer isso em voz quase inaudível, o queixo voltou ao peito, junto aos livros e não conteve o sorriso.
- Tem certeza? - o tom de voz não demonstrava brincadeira.
- Como? - o sorriso não era mais parte de sua expressão. A indignação, sim.
- Eu apenas quero saber se tem certeza disso, se não foi apenas uma beijoca normal, acalme-se.
- Se estou lhe contando, é porque é verdade. Aprendi muito e não seria besta de lhe dizer que dei um estalo em alguém - a raiva pairou por seus olhos, e foi embora - Desculpe, eu o beijei sim, John.
- Fico feliz - uma das raras vezes que a satisfação tomou conta de Jones. Isso deixou Anne com um gosto de missão cumprida, não sabia explicar o por que.
Mas todos sabiam que era porque naquela coisa que chamamos de vida, poucos foram os momentos de alegria de John. E Anne sentiu-se uma santa por ter feito que a mente de John se afastasse das desgraças e fosse um pouco calma. Descobriu isso alguns anos depois.
Então ali estavam, atravessando a porta de entrada com rostos animadores e, por pouco, não se abraçaram. O momento de contentamento não foi quebrado à noite, nem com o pouco jantar, nem com uma cena de Peter, nem com as lições de casa. Anne sequer lembrava-se dos detalhes, mas decidiu contar ao irmão o que sabia.
- Apenas fiz - riu muito durante a noite toda, esse foi um dos momentos - Eu gostaria de poder explicar, mas foi bom. Na verdade, foi diferente, estranho e óbvio. Claro que sabe que estou feliz John!
- Parabéns irmã, incrivelmente beijei na mesma idade que você. Espero que você e o garoto se saiam bem, eu realmente desejo-lhes boas novas - uma batida nas costas e a risada dos dois em seguida.
Nessa mesma noite, os três irmãos ganharam casacos novos. O inverno começava a ficar rigoroso e a mãe tinha alguns tecidos sobrando, já que comprava muitos para as remessas de trabalho de junho e julho, os meses mais frios. Peter foi o primeiro a receber, estava até num pacote, para a felicidade dele, era uma jaqueta marrom, com detalhes dos zíperes e dos botões dourados, uma cópia da famosa da época; Peter sentiu-se extremamente superior, exibiu-se até a hora de deitarem-se. Anne e John não se preocuparam, sabiam que receberiam mais tarde. E um pouco depois de Peter dormir, foram chamados à sala de estar.
- Ainda bem que vocês entendem, eu agradeço muito por ter vocês dois - o sorriso cansado da mãe ajudava muito naquelas situações - Está aqui.
Um pacote foi entregue a cada irmão, agradeceram à mãe e tomaram cuidado para não rasgar o plástico que envolvia os agasalhos, poderia ser usado depois. O de John, era um bem roqueiro, imitava couro, como o do irmão mais velho, mas os detalhes eram prateados e tinha uma gola alta que deixou o garoto extasiado.
A jaqueta de Anne merecia mais atenção. Ao abrir o pacote, sua boca se abriu. Era de um vermelho sangue, ácido, quase enferrujado, que a deixava com cara de fã de The Runaways. Nos braços, havia botões, que a permitiam levantar a manga e assim, expressar o descaso com as roupas, que mostrava quando as cortava. A gola já estava levantada, havia botões nela também, como no final da jaqueta, na barriga, o que permitia abotoar ou não. Ah, e os bolsos. Os mais confortáveiis que Anne já vestiu, eram logo abaixo dos poucos seios que tinha. O contraste dos botões e zíperes pretos com aquele rubor a deixou sem palavras. Como uma simples peça de roupa podia animar-lhe tanto? Havia decidido que tomaria conta daquela jaqueta como tomava conta de sua própria vida, até melhor. E a escondeu no colchão, muito bem dobrada, só dormiu depois de ter certeza de que ninguém a viu colocando-a lá.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O lugar preferido

Caminharam por cerca de trinta minutos até chegarem à rua da casa deles. Era no máximo, 18:30 quando a mãe deles os berrou na porta da casa. A casa amarela, a qual Anne chegou já faria seis meses. A experiência daquele dia marcou o primeiro semestre. Muitas iriam marcar.
Mas a casa. Era um sobrado, não tinha um porão, portanto, havia um sótao. Era onde a garota passava a maior parte do tempo, ela nunca saía de casa, achava a rua de casa muito monótona. Aprendeu a ler e a ler coisas boas dentro da menor parte da casa, depois do banheiro no segundo andar que era para ela e os irmãos. A pintura da fachada não era muito bonita mas uma das poucas da rua que não era mofada ou descascada, as telhas eram de um marrom tremendamente escuro, não havia nada na casa que ela não gostasse.
A divisão dos cômodos era feita com os de visita embaixo, e os dormitórios no andar de cima. O sótão claro, era como o segundo andar, então, Anne o chamava de "Caminho para o Céu". Não era crente, apenas pensava no céu como o universo. Calmo, flutuante, escuro e perto do silêncio.
No sótão, ela tinha uma biblioteca, que o pai construiu com madeiras velhas que estorquiu da marcenaria e também, um toca fitas, o qual ela tinha um esmero imenso. As fitas, conseguia vendendo roupas velhas suas para o pequeno brechó, e dava uma parte à mãe. Considerava-se muito intelegível, já que aprendera um pouco de inglês com bandas que descobriu serem pioneiras no Rock.
Guardava as melhores coisas dentro de um furo que fez no colchão com uma faca. Sabia que se a mãe soubesse, a mataria, então, fazia questão de trocar os lençóis ela mesma. A lavanderia era no andar debaixo, perto de onde a mãe, Mary, costurava. A amorosa e rígida mãe já tentara lhe ensinar o ofício, mas, apesar de aprender bem, Anne achava entediante. O tédio não a satisfazia, nunca.
O pai, Joseph, costumava sempre trazer presentes aos filhos e a Mary. Apenas John e Anne eram adotados, a tese do ciúmes de Peter pairava sobre essas circunstâncias. Peter era uma criança extremamente hiperativa e irritada. Qualquer ato de carinho ou o mínimo de atenção que um dos irmãos recebia, Peter reagia verozmente e começava um de seus ataques. Como os irmãos mais velhos já haviam se acostumado, ignoravam todo o choro, contorcionismo e gritos. Tudo a eles parecia uma pequena encenação, se retiravam do cômodo e logo as vozes cessavam; nunca incomodaram muito.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A história de John

Sempre que chegava a casa, Anne comia um pouco do que a mãe havia feito para o jantar. Não era muito rica, uma família smples tentando se sustentar. Era tão sacrificante qualquer coisa dentro de seu lar, que de todas as coisas, ela fazia muito pouco. Comia pouco, dormia pouco, falava pouco. Apenas limpava muito. Limpava toda a sujeira de seu pai, que nunca chegava sóbrio em casa; a da mãe, que trabalhava arduamente como costureira e não tinha tempo nem pra si; e finalmente, limpava tudo dos irmãos.
Tinha dois irmãos, Jones, o mais velho, o qual chamava de John, sempre lhe dava atenção e compartilhava experiências, tinha dezesseis anos; e Peter, o peste como gostava de chamar, era o mais novo, tinha sete anos e ela se tornou extremamente cuidadosa quando houve o nascimento dele. Nenhum era irmão de sangue.
Nunca discriminou nada, então, seu irmão mais velho nunca a discriminou. Entendia tudo que passava, pois já havia passado por essas coisas. E coisas piores. Conhecer a história de John foi um dos únicos momentos em que Anne se entregou à curiosidade, ao medo e concentrou-se ao mesmo tempo.
Ela não conhecia muito mesmo nem de si mesma quando aconteceu. Sem querer, derrubou uns livros que carregava de seu irmão e sem explicação, ele começou a se desculpar. Nunca entendeu muito o porquê de seu irmão viver pedindo desculpas, não havia muito tempo que vivia naquela casa e já tinha dúvidas. Foi então que perguntou.
Por quê?
Desculpe-me?
Por que há sempre palavras de misericórdia na sua boca?
Eu não compreendo.
Por todos os atos, você pede desculpas. Quero só saber o porquê.
Não entendeu o que eu quis dizer. Eu mesmo não entendo porque sempre peço desculpas, então não posso lhe explicar.
Talvez seja algo de antes. Antes desta casa nova, antes dessa vida que levamos.
John permaneceu calado. Ele tinha pouco mais de quatorze anos quando essa conversa o abalou. Num ato de impessoalidade, arrancou os livros da mão de sua irmã e disparou em direção a uma rua, que para Anne pareceu nunca chegar.
Venha.
Naquela rua, ele apontou um sobrado. De uma aparência não tão boa, pintura azul-clara desbotada e descascada, janelas fechadas, com grades e uma escada até a porta. O teto não era muito alto e havia grandes manchas de mofo na parede.
Ali, onde parece abandonada. Não é. Aquela é minha antiga casa, onde eu vivi até os dez anos, como você com seus pais. Certamente nunca voltarei a morar aqui, e agradeço por isso. Uma vez, eu acidentalmente derramei um pouco de leite no meu irmão mais novo. E recebi a maior surra da minha vida, passei quatro horas jogado no chão. Socos, chutes e xingamentos. Minha mãe fez isso comigo - e apontou uma cicatriz, acima do lóbulo esquerdo, escondida entre suas sobrancelhas loiras. Aquilo causou uma abertura da boca da garota, mas ela se conteve - E sinceramente, eu adorava essa casa.
Você. Tinha irmãos.
Sim. E não me pergunte, não sei onde eles estão.
Continuaram andando, John agarrado aos livros, sem olhar sequer aos lados e Anne, com as mãos nos bolsos de seu jeans velho, sentindo o vento frio no rosto e no peito. Pensou que ficaria resfriada, mas aquilo valia a pena. Ah, se valia.
Seguindo reto, até o fim da Rua do Crespúsculo, como denominou Anne, já que aquilo mais lhe parecia o fim e o começo mesclados entre si, John virou à direita e andaram por uns seis minutos. Uma eternidade para a curiosidade.
Pararam. Estavam na esquina de uma grande avenida, e no outro lado da rua, Anne viu um grande prédio.
Aqui é onde eu fiquei seis meses antes de a Srª Mannes me adotar. Eu passei os melhores tempos aqui, descobri que existe o carinho. Descobri também que banhos são bons, sua porquinha - tocou e esfregou o cabelo marrom-dourado da irmã -, aprendi também que depois de tanta coisa, eu ainda tenho um coração.
Rindo, os dois abaixaram a cabeça. Impressionantemente, ele continuou a andar reto na avenida, e a garota teve de apertar seu passo, já que ficou para trás pensando que o tour havia acabado.
Nunca tinha passado por aquelas ruas de Achelo, sentiu-se ameaçada. A cada passo, suas mãos cavavam mais fundo nos bolsos, o vento quase furava seu coração e sua mente se desdobrava tentando descobrir pistas de onde estavam indo.
Passaram pela única árvore da avenida, o que intrigou mais a menina e, logo depois dela, viraram à direita numa viela escura e com grades no final dela, pretas e que lhe eram muito inóspitas.
Mas que drog...
Uma interrupção quase grosseira tomou-lhe a fala.
Eu não deveria te mostrar isso, mas vou. Se é grande o suficiente, não sei, talvez cresça com o que eu te disser agora.
O olhar fime quase a assustou. De trás de um latão de lixo, algo se moveu e a assustou tanto quanto as palavras do irmão. Sim, ela estava com medo. O algo se levantou e mostrou uma aparência muito descuidada, literalmente. Parecia um mendigo, mas levava pacotes na mão, ela não desconfiou do que era.
Hoje não, eu não vim aqui por você.
As palavras soaram para ela como uma expulsão, mas o mendigo não foi embora. Aproximou-se deles e nesse momento, o frio na barriga de Anne pareceu unir-se com o vento e arrancar o coração de seu peito por alguns segundos, devolvendo-o aos solavancos.
John...
Foi a única coisa que disse antes dele empurrá-la para atrás de seu ombro esquerdo, e, não vendo mais seu olhar, agradeceu a tudo. De algum modo ela se sentia protegida ali, mesmo o irmão sendo metade do homem.
Eu já disse, deixe-nos. Não me importo com o que quer, não lhe devo mais nada.
Eu não quero nada. Só estava avaliando o que a verdade fez com você.
Aproximou-se tanto dele, rosto quase encostando um no outro que Anne suspirou. E foi a pior coisa que podia fazer.
Veja só - deu um salto de modo que ultrapassou a guarda de John e parou ao lado com Anne.
Anne mantinha o olhar focado em toda magreza daquele rapaz, descobriu que não era um homem porque vestia uma camiseta do Velvelt Revolver, mas era rasgada e havia visto o jeans na vitrine da loja que tinha sido recentemente atacada. E o cabelo, escuro como noite sem lua, deduziu logo que ele não passava de dezoito anos, no máximo.
Trouxe cliente nova.
E o riso no seu rosto tornou-se malévolo. Vendo a maliciosidade, Anne não quis ver mais nada, fechou os olhos e apertou mais o braço esquerdo da blusa do irmão, como se desejasse morrer ali, mas junto com o que a protegeu.
É muito difícil entender que não há nada que eu quero de você?
As palavras caíram no rapaz como chumbo na água. Anne abriu os olhos. A expressão e a postura mudaram, ergueu-se como um alfa, o sorriso malicioso saiu do rosto e deu um lugar a um cerrar dos dentes por debaixo dos lábios cor de carmim desbotados, e o olhar terno se transformou num ódio sem igual.
Mas logo, a expressão se transformou, novamente. Agora, ele era um zombeteiro, ria de Jones e estava explícito que era uma piada. Anne continuava sem saber o por quê.
Sim, você pagou sua dívida - e caiu numa gargalhada tão intensa que a fez dizer bem baixinho, as palavras que só seu irmão ouviu.
Filho da puta.
Então, ele saiu andando pela parte do beco em que havia saída. John, com olhar e modos de derrotado, segurou nos ombros da menina e a olhou firmemente nos olhos. Fez mal, a garota tremia, pelo medo e pelo frio, suas pernas, bambas e de seus olhos, quase escaparam lágrimas.
Eu disse, aqui não é um bom lugar - e fez a garota firmar os pés no chão - Foi aqui que eu cresci, durante seis meses, depois da surra. Esse cara chama-se King, ele vende as melhores drogas da região. Ele me fez pagar um preço alto pelas que eu consumia. Não sei se imagina o que é, mas eu não irei lhe dizer. já passou bastante coisa hoje.
Do rosto de Anne escorregaram lágrimas. Por vários motivos, frio, fome, cansaço, medo, alívio, e ela sabia como o irmão pagou ao traficante. Constantemente, ela ouvia tudo que o irmão dizia durante os pesadelos e, um dia, foi a uma clínica médica com o irmão e a mãe. Os pesadelos pararam desde então, e, ela descobriu porque seus primeiros lençóis tinham manchas de sangue que não saíam.
Eu... Desculpe-me.
Ele já havia andado uns quatro metros na frente dela, para sair do beco e virou-se turvamente, Anne quase não percebeu.
Não peça desculpas. Não lembra o motivo disso tudo?
Um golpe de vento no seu rosto, teve de tirar o cabelo dos lábios antes de dizer algo. Havia alguma coisa naquela situação que a mantinha entretida, mesmo que estivesse quase a ponto de ser engolida por sua própria mente.
Estou lhe acompanhando.
Andaram. E andaram muito até chegar em casa, estavam do outro lado de Achelo e Anne apenas sentia os socos de vento, até que o irmão, vendo-a tremer, passou o braço por seus ombros. Até aquele momento, Anne não havia percebido o quão quente ele estava. E como era confortável a sensação de segurança.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Só por dizer

Preciso jorrar isso em algum lugar. Você, um dia, se olha no espelho e se lembra da garota da revista, aquela de pouca roupa, bonita, esbelta, feliz. Você tenta ver, ali no reflexo, algo que te deixe feliz, e não encontra. Compara aquela foto com a da menina da revista. Repulsa. Você decide: não gostam de mim assim, eu nem estou como nessa foto bonita, vou resolver isso. Você passa uma, duas, dez horas; você passa um, dois, dez dias, você passa mal e cai, você levanta e começa de novo. Você sente que cada trancar do maxilar é maligno, você é um monstro feito de dentes. Você cai de novo, encontra outro caminho. Você cai, e então se segura antes de chegar ao chão. Você mente que está bem, você cai, você se segura, você mente para si mesma. Por outro ângulo, não gosta de invejar. Pensa que é sim, mais bela e feliz, mas o espelho não mente, ou não ajuda, e que fotos são essas? Não é mais você. Você não sabe o que se tornou, pouco consegue encarar. Ser bela dói, você pensa, pensa que cansa. Já percebeu e nega que não é você que cansa, que decide, que nega, é o que você se tornou que pensa por ti. Isso tomou conta de você, isso é você. E por mais imprevisível que seja, dói também ao chegar lá. Esse não é o pico mais alto, escaladora, tente de novo, não é o suficiente. Você imagina como seria voar, o mais alto, onde não se possa ouvir os pensamentos. Você até que gosta de borboletas, as que vivem poucos, mas vivem belas. Bor-bo-le-tas. A-ma-re-las. Voe em direção ao Sol e seja feliz. Ou não.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Característica

Creio que sei o que acontece, eu deveria encarar mais vezes, é que dói. Se bem que essa dor não vai passar tão cedo e eu, até me dou bem com ela. Então. Devo coisas, é assim que me sinto, como se as coisas não fossem destinadas à mim, não as boas pelo menos, e, tendo isso em mente, eu devo entregar e distribuir o que ainda estiver bom dentro de mim, porque é assim. Talvez aqui dentro, eu tenha essa filosofia de que tudo que vai, volta em dobro, seguida à risca, logo, se eu oferecer as coisas boas, elas acontecerão comigo, mesmo vendo que isso não acontece na vida. Assim, eu tenho que só vou entregando os bons sentimentos e ensinamentos, eu não vejo por que de usar em mim, mesmo se quisesse, não sobra muita coisa útil depois que distribuo por entre tantas mentes e corpos. Não que seja legal fazer isso consigo mesma, só é bem mais fácil, não querendo correr nem mascarar o que há comigo, mas quem sabe se eu fizer algumas coisas boas, eu ainda tenha chance de ir pro céu, não? Acredito que é minha culpa, que dou tanto amor que não sobra nenhum pra mim e que eu precise das pessoas pra me afirmar, como uma abelha das flores. Elas não conseguem viver sem o pólen e, não acredito que eu consiga viver sem alguém ali, pra devotar algo, seja amor, respeito, carinho, conselho. Então, mesmo que eu esteja sozinha, arruinada, caída, eu ainda terei as palavras, e sei que quando for de meu desejo, posso usá-las como grandes armas de conselhos, carinho, respeito e amor. Às vezes eu me sinto sozinha, como se não fosse bom ser eu e quem sabe, não seja. Uma solidão que não vai embora, não importa se há alguém comigo; eu aprendi muito bem a ignorar, e isso inclui uma ignorância suprema à mim mesma. Aqueles dias em que eu me afundo na cama, ou só saio dela pra beber água e pegar o computador, aqueles dias em que eu não vejo esperança e passo tardes e madrugadas assistindo desenhos quando não há mais sono. Eu sei que eu posso, melhorar e tudo mais. Só que eu não preciso, eu preciso é de pessoas.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Correndo por entre papel

Os livros são baús de tesouros, com palavras de diamante e ensinamentos de madre pérola, onde eu não posos deixar de encara como um espelho as tantas páginas nas quais o baú se decompõe. 
Veronika, em Veronika Decide Morrer, Maria em Onze Minutos, Leslie em A Menina Que Roubava Livros, Isadora em Medo de Voar. Fujo desses reflexos comuns que os vidros tratados mostram e me enxergo através do livro aberto nas mãos, onde mergulho e nado incansavelmente. Invado e recrio os mundos das folhas, é tão menos complicado assim, assim vendo tudo mais claro com uma atuação barata, um elenco pobre de palavras e esses apertos infinitos no peito, no estômago, no pulso cansado de escrever. 
E não canso de escrever, é ele que cansa de mim, eu só canso de escrever tanto e não dizer nada, pelo que sinto posso deduzir que expressar pode até ser difícil ou impossível e fico meio feliz de conseguir passar por essas barreiras de mim mesma, mesmo que seja não tão excitante assim. 
Aliás, eu só queria mesmo é colocar aqui algo, e esse algo surgiu na aula de Educação Física, onde não faço nada, por licença médica. Parece que o meu corpo está cansando de mim, se definhando sozinho e feliz enquanto eu acabo aqui, no mesmo ponto, com medo de encarar mais uma leitura e encontrar coisas minhas que vão muito além daquelas palavras. Encontro-me nas entrelinhas de qualquer leitura, acabo comigo mesma a cada noite sozinha.

terça-feira, 22 de junho de 2010

I

Ela tenta, capta todas as coisas inúteis procurando por uma distração, procurando por algo em que pensar pra fugir das teias grudadas em todos os cantos da mente e também mudar o que quer que esteja ali, pairando pelo cérebro. Ela toca a nuca com os dedos gélidos, onde o cabelo arrepia e a cabeça cai, passa os mesmos dedos estralados incansavelmente pelos ombros, ossos. Ela não quer fugir, continua e logo encosta em algumas costelas que saltam e podem ser sentidas através do agasalho, não se sente bem. Encolhe-se no banco, foge de pensar, tenta cantar algo enquanto as edificações passeiam do lado de fora da janela, correndo no sentido oposto aos olhares, sente o cheiro do vento dando tapas em seu rosto. Não quer, não prefere, foge. Disso ela gosta. Descer do carro, um dia a mais, ótimo, pensa, talvez esteja acabando. A cada batida do coração, é só tempo a menos, é só mais uma rachadura se criando no órgão debilitado, é mais uma tentativa louca de respirar enquanto o estômago solta gritos e socos e o mundo gira ao seu redor. As pessoas só a roubam, sua vida, sua aparência, o pouco que sobrou de felicidade, elas retiram tudo e deixam ali uma coisa seca, mas seca de dentro pra fora, que só pensa no dia em que vai acabar. Acabe logo. Ela não vai deixar as coisas irem embora, ela só vai tentar mascará-las, para que a dor seja maior quando descobrir o engano à si mesma. Não que não tenha coisas para mostrar, ela só faz si mesma acreditar que não há nada que possa ser exibido, e crê tanto nisso que sair da mentira tem sido difícil, se tornou praticamente impossível. Ela não consegue viver consigo mesma. Espera que o amor venha à tona, ela tenta manter as portas abertas para ele. Ela ainda tenta, ela só queria um presentinho revestido e recheado de amor, para ver nas coisas mais belas e suaves uma motivação, para suportar com um pouco mais de animação. Complicado conviver com flashbacks de todas as coisas ruins enquanto se tenta ser algo bom. Ela só quer ser algo bom. As lágrimas descem e ela só queria que a alma fosse junto, ela queria poder arrancar os pedaços podres com cada corte e vomitar o coração nos momentos de desepero, e quem sabe, ela não o fará qualquer dia, um deus qualquer em que ela passe a acreditar pode conceder isso, não? Ela sabe que tudo que pedir, é demais. Ela entende que não há saída, ela sabe que só mudará quando houver drama. E ela só quer uma vida sem dramas.

domingo, 20 de junho de 2010

Meu viver

Noção de quanto tempo faço isso comigo, não tenho. Não espero motivar pessoas através desses textos que faço, eu sei que até posso, mas espero me motivar, enxergar o que há e me dar algum conselho que preste, deve haver algum, dentre tantos que tenho, dentre tantos que digo. Uma certeza doida que não vai dar certo, que sempre vai ser do modo como eu sei que vai ser. Mentalidade de física, 'eu entendo, eu posso prever' e, claro, essa vida toda eu só tenho feito isso, tentado prever o que vai acontecer pra agir de outro modo, ou do mesmo; sem considerar que a vida é imprevisível e todo esse blá blá blá. Poxa, é maldadade tamanha querer desvendar o destino, querer ver um pouco além do que todos veem, só prase sentir viva? As coisas se desdobram facilmente, é só deixar acontecer, ouço isso constantemente. Como se fosse muito fácil uma infância inteira de decepções e ilusões desaparecer, assim como as retas tortas ou os números errôneos que mostro no papel, e apago incansavelmente tentando repelir o erro da mente, não só da folha, como se as dores não fossem profundas o suficiente para estarem presente e não deixarem uma pessoa conseguir um pouco de paz. Encontro algumas saídas, comprimidos, horas a fio dormindo, exercícios, livros, tv, amigos. Bastar, não bastam, mas a vida se trata de distração, uma coisa que sei fazer bem. Decorar as falas daquele filme, aprender a tocar aquela música, organizar coisas por ordens; isso, é o que me deixa aqui, me prende ao chão e à realidade e me mostra que serei uma boa pessoa, superficial e esquecida, quem sabe até com porte pra erudita enquanto pode se mostrar frágil para o primeiro que tocar naquele ponto, naquela maldita lembrança que mantenho presa atrás de algumas lágrimas. Às vezes coisas bobas me motivam, assim como uma pessoa normal, com os 'pequenos e bons detalhes da vida' apreciados e todas as coisas boas guardadas nas lembranças, pra virarem adubo. Mas, ser normal me mataria, me esgotaria muito pelo menos. Enfim, continuo aqui, com paradoxos e confusão, com cansaçoo e muitas falsas coisas para pensar.

Compreensão

Se manter confortável, é só o que fazem, fazemos, faço. Me impressiono do modo como sempre achamos que nunca é suficiente, que poderia melhorar, mas o comodismo nos matem ali, nos força a continuar. Queria ter muito mais força de vontade. Tudo é tão irreparável, aqui comigo, que me sinto como se fosse desabar a cada tontura, mesmo me mantendo feliz por dentro, por aguentar, por estar suportando, por ser tudo contraditório e eu ainda resistir. Inconsequencia? Necessidade, de ter algo com que me importar, e que esse algo seja comigo; apesar dessa máscara toda de vaidade ser uma camada que cobre o que quer tenha aqui, que eu não consigo disfarçar com outra coisa, nem encarar para mandar para bem longe de mim, longe de me deixar fazer mal à mim mesma. É tão mais fácil sentir as gotas salgadas escorrendo pelo rosto esperando que a tristeza se vá em forma líquida também, é muito melhor você se fechar e ouvir um cd novo, ler um livro do que pensar, é até revigorante você superar as metas sem sentido que a tua cabeça te impõe, só pelo fato de que você não precisa encarar. Não agora, não enquanto ela se mostra, enquanto ela está exposta, enquanto parece recente. O tempo que a tire de todas as atenções, ou quem sabe, aqueles comprimidos me tirem de mim, e depois, quando for uma grande cicatriz, eu posso pensar em resolver. Sei que não vai ser melhor, mas as consequências, quando tiradas da minha frente, se tornam mais solúveis, quase quando se sente que vou adaptar-me, mas com um pouco mais de tempo que levaria uma pessoa normal. Sempre é diferente, comigo. E de qualquer modo, eu não estou nessa pra ganhar muito, então, o que eu levar no final, já é coisa demais; e, considerando que as coisas que são demais pra mim, levam algum tempo para serem processadas, veremos como sobrevivo à mais alguns dias, meses, anos.

sábado, 19 de junho de 2010

Difícil?

Fico só imaginando o momento de alinhar as roupas nas malas, de ajustar objetos nas caixas e talvez subir a escada pela última vez, olhar fixamente naquele espelho (coisa que nunca tenho coragem de fazer), sentir o cheiro das toalhas e sorrir para o cômodo vazio. Não posso mais passar três anos aqui, sufoca, esgota. Cansa. Talvez seja isso, eu fique feliz e tenha uma vida melhor, mais serena ou então volte pra aba do meu pai, porque é o que fazemos sempre. Mas eu não posso arriscar o talvez, eu simplesmente tenho de sair e viver do jeito que for, como qualquer outra pessoa que resiste às coisas sem perceber, que passa os dias só pensando em outras coisas, se distraindo porque é melhor que encarar, melhor que ver a grande infelicidade ultrapassando os dias e penetrando na mente, no corpo, na alma. Eu não confio no talvez. Pode ser, que o homem debaixo da cama se torne outra coisa quando vira o homem em cima da cama, como se o sonho se despedaçasse só porque se tornou real, mesmo sendo assim que acontece quando acordamos, mesmo sabendo que quando abrir os olhos, os pedaços de magia ebulirão. Mas eu preciso crer, preciso considerar tudo e, mesmo assim acreditar, porque eu vivo disso, de saber que eu vou poder, mesmo que impedida, eu vou lutar, e eu vou saber no final que vai ser diferente do que imaginei, porque tem de ser. Tem de ser algo que eu não espere, que não anseie. E nisso, entra o homem debaixo da cama. Ele não pode ser o mesmo em cima dela. Mantenho a fé. Afinal, qual é a graça de se viver assim, do modo como está? Aguardo sim, com uma expectativa imensa o momento disso tudo mudar, do meu modo. Pois esse interessa. Dane-se se o homem debaixo da cama mudar, se acaso se tranformar em algo pior do que o que está em cima dela, eu o quero do mesmo modo.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Possessa

Me acanho aqui dentro de mim só pelo pavor das linhas em branco, pelo medo de colocar ideias e depois sentir saudade delas, como se o meu estoque de 'bons', 'felizes' ou 'doces' fosse acabar, como o medo antes de mastigar o último pedaço de chocolate; mas é também como se eu não pudesse respirar se não escrevo, se não passo por cima do tempo e das dores físicas para deixar algo por qualquer lugar que seja, é como se eu não estivesse com o pouquinho de vida que me pertence. A que pertenço. 
E me diz, gostar é errado? Gostar dessa loucura toda, de escrever por necessidade e sofrer a cada vez que derramo as palavras no papel, gostar de ficar melhor depois de duas mil palavras e também um pouco ressentida e nada orgulhosa de ser tudo uma grande coisa de nada, de talvez serem só essas meras palavras que ficarão por um tempo e se despedaçarão, formando um perfil de uma pessoa que não vivia bem. Gostar de botar o que for aqui, na folha, na risca do lápis, só pra me sentir bem consigo mesma, só pra continuar acreditando que as palavras salvam, só pra continuar forte se sentindo um pouco menos frágil, por ter essa oportunidade, de expressar (ou tentar) o que for, inexplicavelmente. 
Algum dia eu queria ter o poder, o poder de escrever para algo, para alguém, para mim. Para ficar feliz não um pouco aliviada, para sentir algo de verdade e não ir aprendendo até ver que não consegue, para poder acalmar um momento, ouvir as batidas do meu coração e só escrever o que vier, indiscriminadamente, sem apagar, riscar ou achar que é ruim. Eu ficarei feliz, terei até quem sabe um pouco mais de carinho excessivo com o que digito. Quem sabe. 
Palavra, poder, possibilidade, póstumo. Não posso encontrar coisa melhor que escrever, além de fechar os olhos e esquecer de tudo. Mas prefiro encarar, escrever e expor a mim mesma o que nego sempre que possível, ler ali naquilo qualquer que fiz, o que sou, ou tento ser, ou quero ser, ou simplesmente tentar ler, tentar entender. E eu me entendo melhor com palavras que com pessoas.