quarta-feira, 28 de julho de 2010

Olá eu

Ódio e lágrimas engolidos, punhos e maxilar cerrados, cérebro, coração e respiração ritmados. Não é ruim, porque eu não mereço coisa melhor que isso. Mas não é bom do modo que eu preciso, de um modo que o rancor não exista assim como a raiva e do jeito que eu possa viver normalmente, não tentando controlar tudo.
Eu chamo de rancor. Isso aqui, esse desejo imoral de todos morrerem e eu ser a primeira, essa ignorância, o meu silêncio e desdenho diante de coisas as quais já me acostumei, as quais não fazem mais sentido mesmo que nunca tenham feito e também às que me enjoaram. Não sei porque tenho isso e não gosto de culpar os outros por isto. Sou eu. Rancorosa e ridícula. Eu.
Se me quiser estou aqui. Rancorosa e ridícula. Estou, sempre estarei, é só ter paciência e você consegue algo. Pa-ci-ên-ci-a. Se não me quiser tudo bem, eu nunca vivi por isso chamado platônico e apesar de achar bonito, não sei se conseguiria.
Toco-me constantemente, estralo os dedos, cruzo e descruzo as pernas, abraço à mim mesma com os braços, passo os dedos pelo pescoço e também pelo que tenho no rosto. Eu sinto porque não me encaro no espelho, não me vejo ali, não mesmo, como se o sorriso infantil, os olhos cansados e sinceros, as maçãs salientes, as sobrancelhas espessas e todo o resto não me pertencesse, como se fosse uma grande máscara que eu não possa tirar. Queria ao menos uma máscara bonita, mas já que o que escondo é tão rude e sujo, eu aceito, eu aceito qualquer coisa.
Eu aceito que o meu mundo desabe a cada segundo e a cada olhar e também a cada toque, eu sei que mereço, é o sentimento predominante em mim, conformismo. Me conformo porque eu não quero mudar agora, então aceito. Eu mereço. Mereço esse rosto de adolescente e essa carência de mulher, mereço cada fio de cabelo loiro e notas satisfatórias mas não ótimas, mereço que tenham medo de mim e também que esqueçam. Esqueçam-me, a medrosa da história sou eu.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Tirando o pó

Quero que sintam como eu sinto.
Quando alguém tocar tua nuca com os dedos frios, quando alguém olhar pra ti e sorrir como criança, quando alguém estralar os dedos, quando alguém pular em você, quando alguém dedilhar uma música no violão, quando alguém sussurar, quando alguém mexer no teu cabelo, quando alguém gritar bem alto uma frase sem nexo, quando lembrar de filmes infantis, quando assistir Juno ou John e June, quando alguém for muito masculino.
Preciso disto. Do carinho, dos toques, dos beijos, dos cheiros, dos sorrisos, dos olhares, do silêncio. Preciso. Os pedaços do meu coração ficam com mais aparência de um a cada vez que fecho os olhos, lembro e elas descem pelas bochechas.
Eu as deixei vir, as deixei inundar meus olhos e rolarem pela face, as deixei lavar as coisas ruins e marcar as boas e logo, elas se trancarão de novo. Por enquanto não cessam. Sinto como se não fosse desabar, pois já sou as ruínas, sinto como se fosse um transe, para a volta, para reviver a maldade real. Para voltar a ser. Real e má. Com boas lembranças no quebra-cabeça que é o coração.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Hoje

Não sei o que desgasta mais, se é a dor que eu causo ou as palavras que atingem as dores, não compreendo mais nada. Fico seguindo em frente, acordando a cada dia, comendo alguma coisa, pensando em nada e assistindo desenhos para me distrair e então, chega qualquer um, com quaisquer dizeres e esses me levam às lágrimas, me levam à raiva e logo às promessas de que vou me afundar de novo. E logo, um novo dia, um novo delírio, um novo desgaste.
Como se não bastasse meu coração levar o sangue à cada ferida nova e velha em cada pulsar forte e sacrificado, as que ainda não cicatrizaram só doem mais e as que já cicatrizaram não me deixam esquecer que existiram, com a cor e a textura diferente do resto da pele. Minha pele é meu manto, é minha imagem e minha máscara. Você nunca saberá nada de mim além de que tenho uma bela aptidão para ser atriz.
Eu só queria para de ser tão fraca, tão fraca a esse ponto. Eu só quero que tudo pare, o tempo, a vida, o meu ar, eu me viro depois, eu sempre acabo me virando, com ou sem pessoas eu ainda estou aqui, com ou sem conselhos eu ainda estou aqui, com ou sem razão eu ainda estou aqui. Só precisava que entendessem e me deixassem sim, me afundar nos cobertores todos que deixo jogados na cama porque me dão um conforto que talvez eu nunca tenha, que me permitissem viver de água e também, parassem de insistir, parassem de dizer o que dizem porque eu sei o quão difícil é ser esse parasita, esse peso morto, esse livro em branco, essa ferida imensa e intocável, não é complexo de inferioridade, é realismo. E eu sei que sou realista, porque mesmo sendo um nada ainda tento compreender as coisas que se passam, e mesmo caindo cada vez que tento respirar eu continuo. O ato de continuar é digno, é verdadeiro e rotineiro, não glorificando-o, é somente bom. E seria útil se eu ainda fosse algo.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Meu

Tentando viver como dizem "normalmente" e cansando cada vez mais cedo. Cada despertar é exaustivo e cada sorriso forçado um pedaço de insanidade se espalhando pela cabeça. Que merda estou fazendo, o que eu quero fazer, voltarei pra você minha pequena obsessão e então ficará tudo bem, tudo lindo e o vazio aqui dentro cada vez maior e penetrante, cada vez mais profundo e cortante, cada vez mais vazio. Aprecio o vazio, é único. O meu vazio me salva dessas tentativas tolas de me ajustar à realidade e me traz de volta a busca por aquilo que não posso ter, o meu vazio é meu aconchego, simplesmente porque ele sou eu.
Me tornando o vazio eu posso controlá-lo, ou ter a fantasia de que faço isso. Seja como for, estou bem, vou ficar bem, só preciso de um pouco mais de vazio, só um pouco mais, isso, mais um pouco, acho que não é suficiente. Acho que eu poderia ser muito mais vazia mas o fracasso me impede, ele se aloja na minha mente e fica ali, me impedindo de ser vazia.
Pra mim o vazio é branco, preto, cinza, cintilante, fosco, macio, áspero e todos os paradoxos que podem existir, ele é algo que se torna adaptável à qualquer coisa, ele é algo inexaurível e que tem um preço caro, é um ídolo meu e um objeto já existente. Queremos sempre mais e mais, e eu só quero um pouco de vazio olhe só, é um coisa tão pequena contando com os desejos dos outros, repare bem, é só um pouco de vazio. Um pouco de nada não faz diferença, não para vocês, só que para mim é bem mais complexo então eu só preciso de um pouco mais dele para entender bem, ou talvez eu prefira não entender, talvez eu só queira nadar nesse vazio até que de algum modo eu consiga me afogar.
É só vazio, eu sou o vazio, eu quero mais do vazio e só preciso do vazio, não é muito complicado. Só um pouco menos e mais, só um pouco do que ninguém valoriza, só isso, esse vazio. De qualque modo não vou mais tentar ser comum ou razoável, cansei, de fingir que tudo normal me agrada, que ainda há esperança para mim e nada mudou. Me tragam de volta o vazio que hoje eu preciso esquecer e lembrar.

II

Não há mais verdade no que ela chama de vida, nem um pouco de sinceridade dos que ela chama de família e amigos, e tudo que ela precisa é de algum tempo desperdiçado com palavras, as palavras simples e fortes que alguém poderia sussurar perto dela. Ela tem aquela fragilidade enrustida, aquela fraqueza que se esconde atrás de ignorância e vai sumir, vai sumir um dia, quem sabe, talvez, pode ser, ela não sabe, ela não quer saber. Alguém diga a ela o que fazer para ela fingir que não escutou e então fechar os olhos e respirar, e expirar e inspirar, várias vezes. Não deseja um cheiro ou um olhar de pena, ela quer um abraço e um 'vai ficar tudo bem'. Na verdade nem isso quer, ela quer só para ignorar, ela quer só para virar para si mesma enquanto observa as cores por aí e pensar que é forte, que pode.
Não a procure, não a deseje, não a acalente, ela não é capaz de receber quaisquer que seja o sentimento além dos ruins, ela os costura calmamente dentro de sua cabeça e os transforma em desespero, um desespero sem igual, o desespero que a fará arrepender-se para sempre, tido que o sempre é apenas a vida que levará durante esse tempo que ainda tem, só contando que será daqui alguns bons anos.
Ela não vai parar, ela prefere as pequenas satisfações ilusórias de agora, ela prefere ter no que pensar, ela prefere pensar no que não a levará a nada do que tomar alguma decisão. Ela percebe que é mal, que é má, ela não se engana quanto à isso, ela só se engana quando há saída.

sábado, 10 de julho de 2010

Breve

Queria sumir às vezes, parar de perceber as coisas tão tarde, me libertaria de uma grande e cansativa luta contra mim mesma, essa luta que eu não vou ganhar e tenho consciência da derrota. Ou não, eu nunca estive tão pra baixo assim, sempre vou pensar desse modo. De repente quero engolir o mundo pra tentar curar o grande pedaço de nada que fica, enroscado nisso que eu me tornei e depois me sinto tão culpada que preciso ficar limpa por três, quatro, cinco dias. Eu fico feliz de ter algo pra preencher e logo me descontrolo, logo deixo que o falso controle corra das minhas mãos para o meu instinto e eu acabo assim, perdida e esperançosa que amanhã será um novo dia.
Não me reconheço mais, não posso ver o que eu conhecia, eu não me sinto como algo que seja, algo coerente que transporta vida pelo gesto e transborda idéias pela fala, eu me perdi aqui dentro, dentro dessa incabada pessoa que sou e não quero achar, olho para isso e vejo olheiras, vejo longos fios pela nuca, vejo sardas e alguns ossos, mas ao que dou importância não vai ser transmitido por esse toques e minutos na frente do espelho tentando encontrar a mim.
Força. Para não encarar o espelho de medo, para andar por aí cheia de dores e rancores, para mentir que estou bem, para passar cinco dias sem comer, para olhar nos olhos de qualquer um e dizer que estou feliz. Bela força, bela e autodestrutiva.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Aceitando

Ela realmente sabia o que ele tinha em mente, ela não só sabia, como correspondia, e achava que era algo que abdicar seria burrice. Não havia um motivo concreto para ela desistir, apenas motivos reais para que ela continuasse insistindo, mesmo que no fim não desse nada. Anne apenas conformou-se com a história: os dois melhores amigos estavam tendo sentimentos a mais do que deveriam, mas aquilo não era errado; mais uma experiência para os dois.
Foram à escola no mesmo dia, comportaram-se normalmente, não houve nenhuma suspeita ou desconhecimento de parte alguma; os colegas eram os mesmos e sequer se importaram em ver os beijos, já estavam acostumados. Na volta para casa, não foi muito diferente, as reações foram nulas.
Com o mesmo pretexto de estudar, Anne passou as últimas horas do dia na casa de Alex, enquanto a mãe dele estava fora, para ficarem juntos mais tempo. A serenidade daquele dia foi embora no momento em que pisaram no quarto de Alex.
- Gostei - jogou-se na cama e deixou suas saias subirem; há quanto não queria fazer aquilo! Tirou os sapatos - Sente-se comigo - e um olhar malicioso sai daquelas castanhas amarronzadas.
Ele andou, também tirou os sapatos, sentou-se ao lado dela.
- Está diferente hoje - ele sabia o que dizia, sabia o que ela queria e o que estava fazendo naquele momento. Ah, se algum dia ela descobrisse o quanto ele sabia dela, eles só precisavam de olhares.
- É claro - pousou a mão dele em sua coxa. Havia algo naquela garota simples de treze anos que a fazia ser irresistível, nem ele conseguiu controlar-se.
- Tem certeza de que quer fazer isso Anne? - não era exatamente uma privação, ele também queria, mas odiaria levar culpa de persuasivo no final.
- Sim - um olhar fundo nos olhos dele, uma palavra dita calorosamente e pensada várias vezes, uma decisão que mudaria tudo.
Em pouco tempo, todo o rumo daquela amizade mudou. Os beijos e carícias começaram, surgiu o momento "como tirar todas estas roupas" e enquanto faziam isso, nada além daqueles minutos se passou pela cabeça de cada um.
Os beijos foram gradativos, evoluindo após um tempo, para os carinhos nos lugares de objetivo, junto com o desconforto por nunca terem feito nada assim, mas, tudo que não era bom, foi escondido para que aquilo fosse relembrado com um sorriso, não com gargalhadas.
Enquanto mantinham as bocas juntas, inclinaram-se e, nesse momento, Anne falou.
- A porta.
Ainda estava aberta e, num pulo, Alex levantou-se e fechou-sa, mas logo voltou ao que fazia antes. Anne, deitada na cama, meio que apoiada nos cotovelos, ele andou em direção a ela e deitou-se entre suas pernas, os dois não estavam completamente nus ainda, tanto que tudo que vem antes continuou por algum tempo até que o ato fosse consagrado.
Moviam-se tão tranquilamente que mais lhe parecia um caminho, mas não estavam nem no meio dele e precisavam continuar. Lentamente, Alex enganchou seu dedo médio e o anular do lado direito da calcinha de Anne, num movimento automático e, Anne o correspondeu, levantou a bacia, de modo que ele conseguisse tirar a última peça que lhe faltava no corpo; e assim ele o fez, levantou um pouco seu corpo para que ela conseguisse quase encostar os joelhos e arrastou o pedaço de pano pela pele lisa até os pés, onde deixou que ela fizesse o resto.
Nesse mesmo instante, tirou a mesma peça que lhe faltava no corpo, e Anne só percebeu quando ele a olhou com uma pergunta nos olhos, aguardando uma resposta como só ele sabia fazer, ela, assentiu.
PS: A história de Anne fica inacabada até inspirações e continuidade maiores.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Os deveres de uma rainha

Era a única garota do grupo e era tratada com um respeito que nunca se vira desde que existiam as freedom. Como era a única a não ser convidada, nem era penetra, até na escola as outras meninas tentavam amizade com ela, porque ela conseguia meninos, drogas e desculpas muito fácil, era como uma rainha, e gostava muito desta denominação.
Já era tarde numa noite de maio, e Anne estava prestes a voltar para casa. Entretidas em outra dimensão, Stelle entrançava o cabelo de Anne e as duas riam sem motivos. Em poucos minutos de risada e entrançamento, Stelle virou-se frente a frente à garota e fitou-a por um tempo, sem expressão nem gestos, o que deixou Anne complexada. Em segundos, todos haviam de voltado até as duas e uma roda havia se formado, Stelle beijava Anne calorosamente, e ela correpondia, de um modo muito mais sujo e masculino, o que entreteu a última meia hora da festa. Excepcionalmente, depois de se beijarem, Anne não avançou, foi Stelle que passeou as mãos por Anne e beijou-a até a barriga, no momento em que Alex agarrou Anne e a tirou da cena de que todos estavam participando, mental ou fisicamente.
- Vamos.
O puxão fez o seu ombro esquerdo estralar, já que a altura do sofá em que se encontravam e a altura de Alex eram muito diferentes, sem contar a força do amigo. Anne compreendeu o que Alex sentia e como estava fora de si, discutiu, mesmo que não houvesse sentido algum.
- Não tem de cuidar de mim - a mão direita arranhando a do amigo, ela gostava daquilo, a dor do aperto, mas tinha de atuar.
- Se eu não fizer quem faz? Você? - riu ironicamente.
- Eu não preciso de você! - não gritou, exclamou tão fortemente e em voz tão inalterada que Alex quase se convenceu de que ela estava sã, logo retirou a suspeita - Eu quero tudo que há de bom, e se eu posso ter, esqueça-me, não me mudará.
- Não é isso que eu quero, não vou perder meu tempo, - soltou seu braço e pegou em seu pulso - receio que daqui vinte minutos sua mãe acorde, quer levar outra bronca? Seria muito para três dias.
Acabavam de entrar na Rua Edis, a rua da casa de Anne, que saiu correndo, mas foi presa pela mão de Alex em seu pulso. Mas que droga ele estava fazendo? Como ele poderia prendê-la se haviam apenas vinte minutos para ela entrar em casa, subir, trocar-se e esconder as roupas? E o mais importante, teria de fazer isso sem acordar ninguém. Alex estava totalmente fora de si, Anne pensou.
Mas não era isso, ele tinha exata noção, havia ligado para Jemima e dito que Anne havia dormido em sua casa, porque ficaram estudando até tarde e, como Jemima gostava muito de Alex, não se importou. Alex prometeu que levaria Anne à escola e passaria para deixá-la pegar roupas novas em sua casa meia-hora depois que ela acordasse. Como se houvesse dormido.
Alex explicou tudo à Anne que se sentiu burra, mesmo não se lembrando depois.
- Você não me odeia, então? - o rosto dele era uma incógnita, por isso Anne perguntou cautelosamente.
- Não, Anne - calmo, respeitoso, no mesmo ritmo da caminhada.
Anne não sabia o que dizer. Foi uma tola, uma criança e tudo que queria era se desculpar, mas, como John, Alex não aceitava desculpas, ele gostava muito de Anne para submetê-la a isso. Dez metros para chegar à casa de Alex, Anne para. Olha para seus braços, as frases e furos, olha para Alex.
- Você sabe, eu não controlo mais - e lágrimas desceram pelas maçãs de seu rosto, mas sem soluços, lamentos a mais ou gemidos. Somente, lágrimas.
Alex olhou impressionado, em algum lugar de Anne, havia arrependimento e de seus olhos, incrivelmente, saíam lágrimas. E agora, quem estava sem fala era ele. Por um momento, ele desejou que o Sol não estivesse raiando e que ali eles pudesem ficar sentados, sem que ninguém atrapalhasse um simples abraço. Afinal, o que eles tinham juntos era um afeto imenso, eles eram melhores amigos, descobriam coisas novas juntos e sentiam-se parte um do outro, e naquele momento, tudo isso foi testado.
Um toque leve nas bochechas dela, o polegar dele tentando consertar tudo que não havia quebrado ainda, uma inclinação ligeira e um beijo. O beijo foi como se fosse o primeiro dos dois, um recomeço para a amizade, que teria muito mais do que isso. O choro cessou e eles ficaram ali, a poucos metros de distância da casa que acolheria Anne, com o Sol nascendo e o carinho exalando. O compungir dela e dele sumiram e assumiram a forma de amor mais puro que os dois jamais provarão novamente, uma forma que não era explícita nem os intimidou, a forma de amor que os deixou aliviados de estarem juntos.
O beijo também cessou, e sorrisos leves tomaram o rosto de cada um. A mão de Alex passou do pulso para a palma de Anne e andaram até a casa dela, espaçadamente e refletindo sobre tudo. Quando chegaram, Jemima os recebeu bem, Anne trocou de roupa em seu quarto para mais um dia de frio em Achelo enquanto Alex a esperava na mesa da cozinha, com um copo de café.
Anne vestiu um jeans escuro com um suéter braco por baixo de um preto, juntou os cabelos num rabo com um elástico e sequer trocou de sapatos, lavou o rosto, as mãos e o pescoço, escovou seus dentes e desceu o mais rápido possível para juntar-se a Alex. Pegou um copo velho, colocou café, juntou os materiais e saiu.
- Vou mais cedo mãe, quero estudar para umas provas - e saiu sem ouvir resposta.
Andaram de mãos dadas até a escola, e lá, sentaram-se e Anne, mais sóbria, começou:
- Eu não vou pedir desculpas, você fez o que deveria, obrigada. Acho que o respeito é mútuo então, o que aconteceu ontem, antes do final, não aconteceu, tudo bem? - ela reprovava a si mesma na frase antes da que a fez acordar, mas, não haveria modo nenhum de pedir desculpas. Tirou essa palavra do vocabulário há muito tempo.
- Só quero que fique bem, importo-me contigo. Não me decepcione outra vez, dói. Mas não de um modo bom, de um modo monstruoso, que você nunca conhecerá - não sentiu-se ofendida, mas foi como um insulto à ela. Ele mostrou tudo que ela tinha medo: cuidado.
Ele gostava dela o suficiente para levar uma bronca da mãe por ter passado a noite fora mas, o que fazer? Em uma semana ela não teria mais os seus inocentes treze anos e sim, quatorze como ele. Então, estariam livres, na mesma classe da escola, na mesma faixa etária e com pais que os queriam juntos. Anne tinha medo disso. Tinha medo de quaisquer outras intenções dele.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Despertar

Poucas foram as vitórias de Anne, se conseguiu se safar das drogas você pode imaginar, mas se há uma coisa da qual ela não conseguia fugir era dos fracassos. Não se sentia bem, sempre havia uma desgraça, mas como ria da vida alheia, se dava ao direito de sofrer. E não só quando era preciso, mas quando podia ser só um divertimento.
Facas, compassos, tesouras, farpas de madeira, vidro, unhas, dentes, O que ela gostava mesmo, era da dor. Seja ela qual fosse, se satisfazia tendo ardência, pontadas ou cortes; consideravam-na sádica, porque, qualquer que fosse o motivo, ela ria, e dava gargalhadas diante do sorimento de qualquer um, diante de seu próprio sofrimento, diante da vida e de suas derrotas.
Numa manhã, duas horas depois de ter voltado de uma freedom, sua mãe entrou no quarto e viu junto à cabeceira da cama, um canivete e um cigarro. Anne nem havia acordado quando a mãe começou a gritar.
- Eu nunca, nunca mais te dou liberdade sua cadela! Como pode? Não te eduquei assim, levante-se agora!
Anne despertou. Sentou-se na cama e ouviu os gritos da mãe, sentiu as palmas dela em seu rosto e chorou fingidamente; ela gostou da bronca, mostrava a todos que não era perfeita e que naquela casa, pelo menos, iriam se importar mais com ela, pois estariam cuidando de sua saúde.
- E que merdas são essas? - a mãe levantou as mangas da menina, palavras sujas e frases mal escritas em seus braços - Você perdeu a cabeça garota? - um tapa - Veremos agora - Jemima sai, vai até a cozinha.
Mexendo no armários de produtos de limpeza, ela parou e refletiu sobre o porquê de tudo aquilo. Lembrou-se de sua adolescência, quando também tinha seus vícios, pensou ser hereditário. Procurando mais um pouco, encontrou o que queria no fundo do armário; pegou a garrafa e um guardanapo numa cadeira, subiu as escadas calmamente. Não queria perder a paciência naquele momento, já havia desperdiçado o suficiente. Entrou no quarto e Anne permanecia sentada, não olhando mais para o chão, agora estava tentando rasgar novamente as cicatrizes da frase "believe in me, as I believe in you", no braço direito, exatamente onde a mãe esfregou o pano que tinha molhado no álcool puro.
- Mãe!
Gritou e contorceu-se, mas a sensação era boa. Um tipo de rasgo a mais, como quando eram feitos e logo após encostados em algum lugar, uma penetração no machucado que a fazia delirar, mas não era melhor que as drogas. Ela conteve o riso, mas aquilo lhe mostrava que era mais forte que pensava, que a dor a alimentava. Alimentava tanto que ao esfregar mais algumas vezes, a própria mãe se impressionou com o resultado do álcool na menina. Foram quatro as vezes, nas quatro frases, quinze palavras.
Jemima continuou no braço direito, subiu um pouco, para perto do cotovelo, onde havia "keep rocking" e Anne gemeu, mas não de dor. Escondeu o rosto, logo após e sorriu, com todo o ardor movendo-se pelos seus cortes e descendo até as feridas camadas de tecido, aquilo era esplêndido. Não conseguia crer na força daquela substância nos seus ferimentos e quis que não acabasse.
O braço esquerdo, nele havia "I just want satisfaction" e "fuck", foi o melhor braço. Na primeira frase, a mãe umedeceu mais o pano e a dor foi mais profunda, apesar de não ter sido tanto porque a inscrição estava lá fazia mais de um mês. Mas "fuck" fez valer isso. Ela tinha escrito isso na mesma noite, então, ainda havia manchinhas de sangue na palavra, o álcool estava gelado e Anne a ponto de dar gargalhadas. Quando o tecido embebido no álcool tocou sua pele, tudo se transformou. E veio o susto.
- Mas que mer... Menina!
O grito da mãe não mudou nada, Anne teve um orgasmo. Um pouco irreal, por ter sido só com a dor, mas Anne experimentou um desses, mesmo sem sequer ter tocado alguém. Ela caiu na cama, logo após cinco segundos de fricções em seu "fuck" e suspirou, de novo e de novo. A mãe, indignada, saiu do quarto e Anne ficou ali na cama, olhando para o teto, rindo e ofegante. Nem ela entendeu o motivo daquilo, mas achou ótimo. E começou a se cortar mais.
Foi à escola naquele dia, mas após pedir desculpas à mãe e prometer não tocar mais em drogas, Anne era a mentirosa. Pela primeira vez não escondeu as frases na escola, foi de bermuda e uma camiseta de manga curta, todos viram os cortes e arrumou novos amigos com eles. Descobriu-se que não era a única, que já tivera casos de uma noite com alguns colegas e que por mais que tentasse, não conseguiria parar. A partir desse momento, Anne nunca mais voltava de uma freedom sem experiências novas, o seu grupo era o mais popular das festas e, consequentemente, criuou-se a hierarquia.

terça-feira, 6 de julho de 2010

O físico de Anne

E como era bonita. Havia crescido durante a adolescência, media a mesma altura de John, era magra, mas bem distribuída. Comecemos do fim.
Os pés de Anne eram esculpidos com o molde dos deuses, uma relíquia que vivia dentro de tênis vellhos, com doces traços e até, veias à mostra. Então vem as pernas de Anne, pelas quais qualquer caboclo aceitaria morrer, apenas para tocá-las; eram as mais perfeitas que esse mundo já criou, bem desenhadas, com curvas onde deveriam ter e longas. Anne era uma das garotas que tinham as pernas mais longas da vizinhança, e gostava disso.
A garota não tinha muitos seios ou ancas, mas o pouco que havia, era bem curvilíneo, divididos corretamente naquela silhueta fraca. Seus músculos eram poucos também, mas bem definidos para uma menina de 13 anos, ela gostava de exercícios e seu corpo sofria as consequências.
As mãos. Grandes, com dedos longos e tão secas que se viam os nós dos mesmos, mas isso não a interessava, lhe agradava. Raramente pintava suas unhas, e quando o fazia, sempre havia cores. E por fim, o rosto.
Ah, seu rosto. Era de um oval perfeito, uma peça de porcelana moldada com toda a gentileza desse universo, com doces e sutis maçãs, logo abaixo dos olhos profundos e negros, os que sempre parecem estar penetrando na alma de qualquer um; eram moldados por perfeitas sobrancelhas e alguns fios de uma franja mal arrumada que tomava sua testa toda quando solta. Sua boca era de um sangue intenso, perfeitamente desenhada, desejada e, quando se abria em sorriso, haviam as lendárias covas em suas bochechas, que pareciam macias e suculentas. Tudo era coberto por um manto negro de fios bagunçados que lhe tomava conta da cabeça, assimetricamente, pelo fato de que o ocorrido com a navalha era praticado propositalmente dali em diante.
Assim eu defino o corpo de Anne.
Já a alma, essa é bem difícil de descrever. É como se ninguém fosse suficientemente capaz de tê-la tocado, então, explicá-la, é uma tentativa em vão de descobrir um segredo que não se revela desde que o mundo existe.
Portanto, desafio quem quer que se ache apto para descobrir, que desvende a mente de Anne.

sábado, 3 de julho de 2010

Sedativos

Uma semana depois da felicidade toda, Anne conheceu as drogas. Não as de inalar, mas as de injetar e os cigarros. Ia à festas de noite, quando enganava os pais e, lá, consumia todas que podia. Até chegar em casa, passavam-se as oito horas de sono e como estava agitada demais, dormia apenas à tarde, depois da volta da escola.
Johnny notou seu comportamento novo e supostamente, foi conversar com ela.
- Qualquer coisa à qual esteja se envolvendo, abdique - o olhar era tenso, rígido, mas cauteloso.
- Desculpe-me? - se havia uma coisa que sabia fazer era mentir. E fez jus à sua habilidade.
- Eu não sou bobo, Anne. Mas a escolha não deixa de ser tua - a voz era mais calma, como um conselho. Não que deixava de ser um, mas, numa esperança tola, ele acreditou que aquilo faria alguma diferença. Num toque sereno, segurou a mão da garota, fazendo-a olhar diretamente aos seus olhos - Não espero que me obedeça, é só um aviso. Você sabe que tenho conhecimento, não faça disso uma coisa insignificante.
Por segundos, não mais do que isso, Anne reconheceu aquele olhar. Ela o recebera pouco tempo antes, no beco, quando estava atrás de seu irmão: o olhar do zelo. Ela realmente quis respeitar aquele olhar, a ternura em forma de ato, quis tratá-lo com toda a importância que ele a tratava, quis dizer o que sentia e chorar no ombro do irmão mais velho que lhe dava uma salvação da qual sempre se lembraria, sim, ela queria que o carinho todo que viu se manifestando naqueles olhos marrom-chocolate que via através de fios simples de cabelo, queria que aqueles simples segundos fossem revividos e salvassem sua vida. Mas agora, era tarde demais para pensar nisso.
E o momento se foi. Durante toda sua curta vida, Anne sentiu-se arrependida de não ter escutado John, e era sempre disso que lembrava a cada trago ou furo. Aquelas mãos macias envolvendo as suas até os pulsos, aquela voz doce e amadeirada, aquele olhar de proposição, a expressão de carência; carência porque era tudo aquilo de que ele não precisava, e ela insistiu no erro, mesmo sabendo que era necessário a ela mesma.
- Eu não tenho nada a dizer - seca, fria e calma, como uma boa atriz. Tanta leitura a ajudara com interpretações e, mais uma vez, pôs um de seus talentos em prática.
- Tudo bem - ele se retirou.
Ele. Se. Retirou. Deu-lhe as costas, não insistiu, não a fez jurar que não faria de novo, não a agrediu. Apenas saiu andando. Aquilo doeu mais em Anne do que todas as seringas que perfuraram sua pele naquela noite. Ela sabia lidar com tudo, entendia de tudo, compreendia até as pessoas; e fez sua escolha. Não era uma escolha muito boa, aliás, era péssima, mas foi o que ela escolheu. A decisão que tomou após uma ajuda, um bom-senso, que lhe deu o direito disso, e ela rejeitou. Era conspícuo que ali havia algo errado, mas isso ela notaria depois.
Mais tarde, com sua jaqueta no corpo, pulou a janela do quarto, como fazia sempre. Saltava pela janela e agarrava-se à jabuticabeira, descia por entre os galhos e partia em direção a qualquer outro lugar. Ela saía sempre após os pais dormirem, sabia a hora exata deles deitarem e cronometrava os minutos até que caíssem no sono.
Por meios de segurança e por esperteza dela, nunca usava a jaqueta vermelha em público. Vestia qualquer casaco velho que via em sua frente à luz do dia, mas nunca a sua jaqueta. Ela havia guardado para usar justamente em ocasiões festivas, às quais chamava de freedom. As freedom eram as festinhas secretas que havia pela vizinhança de Achelo e outras, à qual Anne sempre comparecia e consumia drogas. Como nas ruas em que passava ainda era conhecida, usava o cabelo preso e a jaqueta, um jeans que havia tingido de preto, All Star e a primeira camiseta que encontrasse, assim, se algum vizinho a visse, pensaria que era apenas mais uma vicciada, o que não deixava de ser verdade.
Passos longos e rápidos, bolsos a ponto de rasgar, cigarro nos dedos da mão direita e postura curvada, de modo que não conseguissem ver seu rosto. Era como definia a si mesma andando pelas ruas de Achelo, numa noite em que refletiu sobre sua vida até aquele momento, poucas semanas depois de começar a se sedar.
A definição era essa: sedação. Nunca vira como uma coisa ruim, que a mataria e lhe deixaria totalmene dependente; pensava nas drogas como em remédios calmantes, que a levavam para lugares aos quais ela nunca tinha visitado. Lugares que a acalmavam, como sucos de maracujá; lugares que a levavam ao delírio, ao riso, com tantas cores e formas; lugares que eram inimagináveis e soavam como canções. Canções que a faziam sentir-se livre de toda a pressão que sofria quando estava na escola, de todas as brigas em casa, de toda a timidez de Alex. Se sentia uma garota rica viajando pelos mundos, pelas galáxias e pelas constelações; conversava consigo mesma e se sentia incrivelmente coerente, era uma das coisas que a consagravam como uma dependente louca e como uma viciada feliz.
Em uma dessas viagens, cortou seu próprio cabelo com uma navalha, por pouco não arrancou um pedaço de seu nariz; acabou voltando para casa sem a jaqueta no tronco, mas na cintura, junto com os braços que nunca se lembrou de quem eram e também com um violão, que aprendera a toca com alguns amigos e escondia no sótão, onde ninguém podia ver.
Conseguir as drogas era, relativamente, fácil. Normalmente, seduzia qualquer garoto com uma higiene e beleza razoável e os convencia a "experimentar" com ela; nunca achou muito difícil, era dotada de beleza

O estado animado de espírito

Johnny chegou estupidamente sorridente em casa, junto com Anne. Era junho de 1983, o diálogo que havia passado era esse:
- John... Queria te contar uma coisa - abaixou a cabeça, incrivelmente, saiu um riso de seus doces lábios juvenis.
- Pois conte - seus olhos mantiveram-se vidrados à rua, alguma coisa havia prendido sua atenção.
- Eu não sei como dizer... Lembra-se do Alex? - levantou o rosto sugestivamente.
- O de cabelo preto, olhos claro, não é? O que te persegue sempre - finalmente a face do irmão havia se voltado a ela. Sentiu-se aliviada, conseguira prender atenção dele, só lhe faltava a coragem.
- Nos beijamos - os tropeços nas palavras a levaram a dizer isso em voz quase inaudível, o queixo voltou ao peito, junto aos livros e não conteve o sorriso.
- Tem certeza? - o tom de voz não demonstrava brincadeira.
- Como? - o sorriso não era mais parte de sua expressão. A indignação, sim.
- Eu apenas quero saber se tem certeza disso, se não foi apenas uma beijoca normal, acalme-se.
- Se estou lhe contando, é porque é verdade. Aprendi muito e não seria besta de lhe dizer que dei um estalo em alguém - a raiva pairou por seus olhos, e foi embora - Desculpe, eu o beijei sim, John.
- Fico feliz - uma das raras vezes que a satisfação tomou conta de Jones. Isso deixou Anne com um gosto de missão cumprida, não sabia explicar o por que.
Mas todos sabiam que era porque naquela coisa que chamamos de vida, poucos foram os momentos de alegria de John. E Anne sentiu-se uma santa por ter feito que a mente de John se afastasse das desgraças e fosse um pouco calma. Descobriu isso alguns anos depois.
Então ali estavam, atravessando a porta de entrada com rostos animadores e, por pouco, não se abraçaram. O momento de contentamento não foi quebrado à noite, nem com o pouco jantar, nem com uma cena de Peter, nem com as lições de casa. Anne sequer lembrava-se dos detalhes, mas decidiu contar ao irmão o que sabia.
- Apenas fiz - riu muito durante a noite toda, esse foi um dos momentos - Eu gostaria de poder explicar, mas foi bom. Na verdade, foi diferente, estranho e óbvio. Claro que sabe que estou feliz John!
- Parabéns irmã, incrivelmente beijei na mesma idade que você. Espero que você e o garoto se saiam bem, eu realmente desejo-lhes boas novas - uma batida nas costas e a risada dos dois em seguida.
Nessa mesma noite, os três irmãos ganharam casacos novos. O inverno começava a ficar rigoroso e a mãe tinha alguns tecidos sobrando, já que comprava muitos para as remessas de trabalho de junho e julho, os meses mais frios. Peter foi o primeiro a receber, estava até num pacote, para a felicidade dele, era uma jaqueta marrom, com detalhes dos zíperes e dos botões dourados, uma cópia da famosa da época; Peter sentiu-se extremamente superior, exibiu-se até a hora de deitarem-se. Anne e John não se preocuparam, sabiam que receberiam mais tarde. E um pouco depois de Peter dormir, foram chamados à sala de estar.
- Ainda bem que vocês entendem, eu agradeço muito por ter vocês dois - o sorriso cansado da mãe ajudava muito naquelas situações - Está aqui.
Um pacote foi entregue a cada irmão, agradeceram à mãe e tomaram cuidado para não rasgar o plástico que envolvia os agasalhos, poderia ser usado depois. O de John, era um bem roqueiro, imitava couro, como o do irmão mais velho, mas os detalhes eram prateados e tinha uma gola alta que deixou o garoto extasiado.
A jaqueta de Anne merecia mais atenção. Ao abrir o pacote, sua boca se abriu. Era de um vermelho sangue, ácido, quase enferrujado, que a deixava com cara de fã de The Runaways. Nos braços, havia botões, que a permitiam levantar a manga e assim, expressar o descaso com as roupas, que mostrava quando as cortava. A gola já estava levantada, havia botões nela também, como no final da jaqueta, na barriga, o que permitia abotoar ou não. Ah, e os bolsos. Os mais confortáveiis que Anne já vestiu, eram logo abaixo dos poucos seios que tinha. O contraste dos botões e zíperes pretos com aquele rubor a deixou sem palavras. Como uma simples peça de roupa podia animar-lhe tanto? Havia decidido que tomaria conta daquela jaqueta como tomava conta de sua própria vida, até melhor. E a escondeu no colchão, muito bem dobrada, só dormiu depois de ter certeza de que ninguém a viu colocando-a lá.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O lugar preferido

Caminharam por cerca de trinta minutos até chegarem à rua da casa deles. Era no máximo, 18:30 quando a mãe deles os berrou na porta da casa. A casa amarela, a qual Anne chegou já faria seis meses. A experiência daquele dia marcou o primeiro semestre. Muitas iriam marcar.
Mas a casa. Era um sobrado, não tinha um porão, portanto, havia um sótao. Era onde a garota passava a maior parte do tempo, ela nunca saía de casa, achava a rua de casa muito monótona. Aprendeu a ler e a ler coisas boas dentro da menor parte da casa, depois do banheiro no segundo andar que era para ela e os irmãos. A pintura da fachada não era muito bonita mas uma das poucas da rua que não era mofada ou descascada, as telhas eram de um marrom tremendamente escuro, não havia nada na casa que ela não gostasse.
A divisão dos cômodos era feita com os de visita embaixo, e os dormitórios no andar de cima. O sótão claro, era como o segundo andar, então, Anne o chamava de "Caminho para o Céu". Não era crente, apenas pensava no céu como o universo. Calmo, flutuante, escuro e perto do silêncio.
No sótão, ela tinha uma biblioteca, que o pai construiu com madeiras velhas que estorquiu da marcenaria e também, um toca fitas, o qual ela tinha um esmero imenso. As fitas, conseguia vendendo roupas velhas suas para o pequeno brechó, e dava uma parte à mãe. Considerava-se muito intelegível, já que aprendera um pouco de inglês com bandas que descobriu serem pioneiras no Rock.
Guardava as melhores coisas dentro de um furo que fez no colchão com uma faca. Sabia que se a mãe soubesse, a mataria, então, fazia questão de trocar os lençóis ela mesma. A lavanderia era no andar debaixo, perto de onde a mãe, Mary, costurava. A amorosa e rígida mãe já tentara lhe ensinar o ofício, mas, apesar de aprender bem, Anne achava entediante. O tédio não a satisfazia, nunca.
O pai, Joseph, costumava sempre trazer presentes aos filhos e a Mary. Apenas John e Anne eram adotados, a tese do ciúmes de Peter pairava sobre essas circunstâncias. Peter era uma criança extremamente hiperativa e irritada. Qualquer ato de carinho ou o mínimo de atenção que um dos irmãos recebia, Peter reagia verozmente e começava um de seus ataques. Como os irmãos mais velhos já haviam se acostumado, ignoravam todo o choro, contorcionismo e gritos. Tudo a eles parecia uma pequena encenação, se retiravam do cômodo e logo as vozes cessavam; nunca incomodaram muito.

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A história de John

Sempre que chegava a casa, Anne comia um pouco do que a mãe havia feito para o jantar. Não era muito rica, uma família smples tentando se sustentar. Era tão sacrificante qualquer coisa dentro de seu lar, que de todas as coisas, ela fazia muito pouco. Comia pouco, dormia pouco, falava pouco. Apenas limpava muito. Limpava toda a sujeira de seu pai, que nunca chegava sóbrio em casa; a da mãe, que trabalhava arduamente como costureira e não tinha tempo nem pra si; e finalmente, limpava tudo dos irmãos.
Tinha dois irmãos, Jones, o mais velho, o qual chamava de John, sempre lhe dava atenção e compartilhava experiências, tinha dezesseis anos; e Peter, o peste como gostava de chamar, era o mais novo, tinha sete anos e ela se tornou extremamente cuidadosa quando houve o nascimento dele. Nenhum era irmão de sangue.
Nunca discriminou nada, então, seu irmão mais velho nunca a discriminou. Entendia tudo que passava, pois já havia passado por essas coisas. E coisas piores. Conhecer a história de John foi um dos únicos momentos em que Anne se entregou à curiosidade, ao medo e concentrou-se ao mesmo tempo.
Ela não conhecia muito mesmo nem de si mesma quando aconteceu. Sem querer, derrubou uns livros que carregava de seu irmão e sem explicação, ele começou a se desculpar. Nunca entendeu muito o porquê de seu irmão viver pedindo desculpas, não havia muito tempo que vivia naquela casa e já tinha dúvidas. Foi então que perguntou.
Por quê?
Desculpe-me?
Por que há sempre palavras de misericórdia na sua boca?
Eu não compreendo.
Por todos os atos, você pede desculpas. Quero só saber o porquê.
Não entendeu o que eu quis dizer. Eu mesmo não entendo porque sempre peço desculpas, então não posso lhe explicar.
Talvez seja algo de antes. Antes desta casa nova, antes dessa vida que levamos.
John permaneceu calado. Ele tinha pouco mais de quatorze anos quando essa conversa o abalou. Num ato de impessoalidade, arrancou os livros da mão de sua irmã e disparou em direção a uma rua, que para Anne pareceu nunca chegar.
Venha.
Naquela rua, ele apontou um sobrado. De uma aparência não tão boa, pintura azul-clara desbotada e descascada, janelas fechadas, com grades e uma escada até a porta. O teto não era muito alto e havia grandes manchas de mofo na parede.
Ali, onde parece abandonada. Não é. Aquela é minha antiga casa, onde eu vivi até os dez anos, como você com seus pais. Certamente nunca voltarei a morar aqui, e agradeço por isso. Uma vez, eu acidentalmente derramei um pouco de leite no meu irmão mais novo. E recebi a maior surra da minha vida, passei quatro horas jogado no chão. Socos, chutes e xingamentos. Minha mãe fez isso comigo - e apontou uma cicatriz, acima do lóbulo esquerdo, escondida entre suas sobrancelhas loiras. Aquilo causou uma abertura da boca da garota, mas ela se conteve - E sinceramente, eu adorava essa casa.
Você. Tinha irmãos.
Sim. E não me pergunte, não sei onde eles estão.
Continuaram andando, John agarrado aos livros, sem olhar sequer aos lados e Anne, com as mãos nos bolsos de seu jeans velho, sentindo o vento frio no rosto e no peito. Pensou que ficaria resfriada, mas aquilo valia a pena. Ah, se valia.
Seguindo reto, até o fim da Rua do Crespúsculo, como denominou Anne, já que aquilo mais lhe parecia o fim e o começo mesclados entre si, John virou à direita e andaram por uns seis minutos. Uma eternidade para a curiosidade.
Pararam. Estavam na esquina de uma grande avenida, e no outro lado da rua, Anne viu um grande prédio.
Aqui é onde eu fiquei seis meses antes de a Srª Mannes me adotar. Eu passei os melhores tempos aqui, descobri que existe o carinho. Descobri também que banhos são bons, sua porquinha - tocou e esfregou o cabelo marrom-dourado da irmã -, aprendi também que depois de tanta coisa, eu ainda tenho um coração.
Rindo, os dois abaixaram a cabeça. Impressionantemente, ele continuou a andar reto na avenida, e a garota teve de apertar seu passo, já que ficou para trás pensando que o tour havia acabado.
Nunca tinha passado por aquelas ruas de Achelo, sentiu-se ameaçada. A cada passo, suas mãos cavavam mais fundo nos bolsos, o vento quase furava seu coração e sua mente se desdobrava tentando descobrir pistas de onde estavam indo.
Passaram pela única árvore da avenida, o que intrigou mais a menina e, logo depois dela, viraram à direita numa viela escura e com grades no final dela, pretas e que lhe eram muito inóspitas.
Mas que drog...
Uma interrupção quase grosseira tomou-lhe a fala.
Eu não deveria te mostrar isso, mas vou. Se é grande o suficiente, não sei, talvez cresça com o que eu te disser agora.
O olhar fime quase a assustou. De trás de um latão de lixo, algo se moveu e a assustou tanto quanto as palavras do irmão. Sim, ela estava com medo. O algo se levantou e mostrou uma aparência muito descuidada, literalmente. Parecia um mendigo, mas levava pacotes na mão, ela não desconfiou do que era.
Hoje não, eu não vim aqui por você.
As palavras soaram para ela como uma expulsão, mas o mendigo não foi embora. Aproximou-se deles e nesse momento, o frio na barriga de Anne pareceu unir-se com o vento e arrancar o coração de seu peito por alguns segundos, devolvendo-o aos solavancos.
John...
Foi a única coisa que disse antes dele empurrá-la para atrás de seu ombro esquerdo, e, não vendo mais seu olhar, agradeceu a tudo. De algum modo ela se sentia protegida ali, mesmo o irmão sendo metade do homem.
Eu já disse, deixe-nos. Não me importo com o que quer, não lhe devo mais nada.
Eu não quero nada. Só estava avaliando o que a verdade fez com você.
Aproximou-se tanto dele, rosto quase encostando um no outro que Anne suspirou. E foi a pior coisa que podia fazer.
Veja só - deu um salto de modo que ultrapassou a guarda de John e parou ao lado com Anne.
Anne mantinha o olhar focado em toda magreza daquele rapaz, descobriu que não era um homem porque vestia uma camiseta do Velvelt Revolver, mas era rasgada e havia visto o jeans na vitrine da loja que tinha sido recentemente atacada. E o cabelo, escuro como noite sem lua, deduziu logo que ele não passava de dezoito anos, no máximo.
Trouxe cliente nova.
E o riso no seu rosto tornou-se malévolo. Vendo a maliciosidade, Anne não quis ver mais nada, fechou os olhos e apertou mais o braço esquerdo da blusa do irmão, como se desejasse morrer ali, mas junto com o que a protegeu.
É muito difícil entender que não há nada que eu quero de você?
As palavras caíram no rapaz como chumbo na água. Anne abriu os olhos. A expressão e a postura mudaram, ergueu-se como um alfa, o sorriso malicioso saiu do rosto e deu um lugar a um cerrar dos dentes por debaixo dos lábios cor de carmim desbotados, e o olhar terno se transformou num ódio sem igual.
Mas logo, a expressão se transformou, novamente. Agora, ele era um zombeteiro, ria de Jones e estava explícito que era uma piada. Anne continuava sem saber o por quê.
Sim, você pagou sua dívida - e caiu numa gargalhada tão intensa que a fez dizer bem baixinho, as palavras que só seu irmão ouviu.
Filho da puta.
Então, ele saiu andando pela parte do beco em que havia saída. John, com olhar e modos de derrotado, segurou nos ombros da menina e a olhou firmemente nos olhos. Fez mal, a garota tremia, pelo medo e pelo frio, suas pernas, bambas e de seus olhos, quase escaparam lágrimas.
Eu disse, aqui não é um bom lugar - e fez a garota firmar os pés no chão - Foi aqui que eu cresci, durante seis meses, depois da surra. Esse cara chama-se King, ele vende as melhores drogas da região. Ele me fez pagar um preço alto pelas que eu consumia. Não sei se imagina o que é, mas eu não irei lhe dizer. já passou bastante coisa hoje.
Do rosto de Anne escorregaram lágrimas. Por vários motivos, frio, fome, cansaço, medo, alívio, e ela sabia como o irmão pagou ao traficante. Constantemente, ela ouvia tudo que o irmão dizia durante os pesadelos e, um dia, foi a uma clínica médica com o irmão e a mãe. Os pesadelos pararam desde então, e, ela descobriu porque seus primeiros lençóis tinham manchas de sangue que não saíam.
Eu... Desculpe-me.
Ele já havia andado uns quatro metros na frente dela, para sair do beco e virou-se turvamente, Anne quase não percebeu.
Não peça desculpas. Não lembra o motivo disso tudo?
Um golpe de vento no seu rosto, teve de tirar o cabelo dos lábios antes de dizer algo. Havia alguma coisa naquela situação que a mantinha entretida, mesmo que estivesse quase a ponto de ser engolida por sua própria mente.
Estou lhe acompanhando.
Andaram. E andaram muito até chegar em casa, estavam do outro lado de Achelo e Anne apenas sentia os socos de vento, até que o irmão, vendo-a tremer, passou o braço por seus ombros. Até aquele momento, Anne não havia percebido o quão quente ele estava. E como era confortável a sensação de segurança.