quarta-feira, 7 de julho de 2010

Despertar

Poucas foram as vitórias de Anne, se conseguiu se safar das drogas você pode imaginar, mas se há uma coisa da qual ela não conseguia fugir era dos fracassos. Não se sentia bem, sempre havia uma desgraça, mas como ria da vida alheia, se dava ao direito de sofrer. E não só quando era preciso, mas quando podia ser só um divertimento.
Facas, compassos, tesouras, farpas de madeira, vidro, unhas, dentes, O que ela gostava mesmo, era da dor. Seja ela qual fosse, se satisfazia tendo ardência, pontadas ou cortes; consideravam-na sádica, porque, qualquer que fosse o motivo, ela ria, e dava gargalhadas diante do sorimento de qualquer um, diante de seu próprio sofrimento, diante da vida e de suas derrotas.
Numa manhã, duas horas depois de ter voltado de uma freedom, sua mãe entrou no quarto e viu junto à cabeceira da cama, um canivete e um cigarro. Anne nem havia acordado quando a mãe começou a gritar.
- Eu nunca, nunca mais te dou liberdade sua cadela! Como pode? Não te eduquei assim, levante-se agora!
Anne despertou. Sentou-se na cama e ouviu os gritos da mãe, sentiu as palmas dela em seu rosto e chorou fingidamente; ela gostou da bronca, mostrava a todos que não era perfeita e que naquela casa, pelo menos, iriam se importar mais com ela, pois estariam cuidando de sua saúde.
- E que merdas são essas? - a mãe levantou as mangas da menina, palavras sujas e frases mal escritas em seus braços - Você perdeu a cabeça garota? - um tapa - Veremos agora - Jemima sai, vai até a cozinha.
Mexendo no armários de produtos de limpeza, ela parou e refletiu sobre o porquê de tudo aquilo. Lembrou-se de sua adolescência, quando também tinha seus vícios, pensou ser hereditário. Procurando mais um pouco, encontrou o que queria no fundo do armário; pegou a garrafa e um guardanapo numa cadeira, subiu as escadas calmamente. Não queria perder a paciência naquele momento, já havia desperdiçado o suficiente. Entrou no quarto e Anne permanecia sentada, não olhando mais para o chão, agora estava tentando rasgar novamente as cicatrizes da frase "believe in me, as I believe in you", no braço direito, exatamente onde a mãe esfregou o pano que tinha molhado no álcool puro.
- Mãe!
Gritou e contorceu-se, mas a sensação era boa. Um tipo de rasgo a mais, como quando eram feitos e logo após encostados em algum lugar, uma penetração no machucado que a fazia delirar, mas não era melhor que as drogas. Ela conteve o riso, mas aquilo lhe mostrava que era mais forte que pensava, que a dor a alimentava. Alimentava tanto que ao esfregar mais algumas vezes, a própria mãe se impressionou com o resultado do álcool na menina. Foram quatro as vezes, nas quatro frases, quinze palavras.
Jemima continuou no braço direito, subiu um pouco, para perto do cotovelo, onde havia "keep rocking" e Anne gemeu, mas não de dor. Escondeu o rosto, logo após e sorriu, com todo o ardor movendo-se pelos seus cortes e descendo até as feridas camadas de tecido, aquilo era esplêndido. Não conseguia crer na força daquela substância nos seus ferimentos e quis que não acabasse.
O braço esquerdo, nele havia "I just want satisfaction" e "fuck", foi o melhor braço. Na primeira frase, a mãe umedeceu mais o pano e a dor foi mais profunda, apesar de não ter sido tanto porque a inscrição estava lá fazia mais de um mês. Mas "fuck" fez valer isso. Ela tinha escrito isso na mesma noite, então, ainda havia manchinhas de sangue na palavra, o álcool estava gelado e Anne a ponto de dar gargalhadas. Quando o tecido embebido no álcool tocou sua pele, tudo se transformou. E veio o susto.
- Mas que mer... Menina!
O grito da mãe não mudou nada, Anne teve um orgasmo. Um pouco irreal, por ter sido só com a dor, mas Anne experimentou um desses, mesmo sem sequer ter tocado alguém. Ela caiu na cama, logo após cinco segundos de fricções em seu "fuck" e suspirou, de novo e de novo. A mãe, indignada, saiu do quarto e Anne ficou ali na cama, olhando para o teto, rindo e ofegante. Nem ela entendeu o motivo daquilo, mas achou ótimo. E começou a se cortar mais.
Foi à escola naquele dia, mas após pedir desculpas à mãe e prometer não tocar mais em drogas, Anne era a mentirosa. Pela primeira vez não escondeu as frases na escola, foi de bermuda e uma camiseta de manga curta, todos viram os cortes e arrumou novos amigos com eles. Descobriu-se que não era a única, que já tivera casos de uma noite com alguns colegas e que por mais que tentasse, não conseguiria parar. A partir desse momento, Anne nunca mais voltava de uma freedom sem experiências novas, o seu grupo era o mais popular das festas e, consequentemente, criuou-se a hierarquia.

Nenhum comentário:

Postar um comentário