quinta-feira, 1 de julho de 2010

A história de John

Sempre que chegava a casa, Anne comia um pouco do que a mãe havia feito para o jantar. Não era muito rica, uma família smples tentando se sustentar. Era tão sacrificante qualquer coisa dentro de seu lar, que de todas as coisas, ela fazia muito pouco. Comia pouco, dormia pouco, falava pouco. Apenas limpava muito. Limpava toda a sujeira de seu pai, que nunca chegava sóbrio em casa; a da mãe, que trabalhava arduamente como costureira e não tinha tempo nem pra si; e finalmente, limpava tudo dos irmãos.
Tinha dois irmãos, Jones, o mais velho, o qual chamava de John, sempre lhe dava atenção e compartilhava experiências, tinha dezesseis anos; e Peter, o peste como gostava de chamar, era o mais novo, tinha sete anos e ela se tornou extremamente cuidadosa quando houve o nascimento dele. Nenhum era irmão de sangue.
Nunca discriminou nada, então, seu irmão mais velho nunca a discriminou. Entendia tudo que passava, pois já havia passado por essas coisas. E coisas piores. Conhecer a história de John foi um dos únicos momentos em que Anne se entregou à curiosidade, ao medo e concentrou-se ao mesmo tempo.
Ela não conhecia muito mesmo nem de si mesma quando aconteceu. Sem querer, derrubou uns livros que carregava de seu irmão e sem explicação, ele começou a se desculpar. Nunca entendeu muito o porquê de seu irmão viver pedindo desculpas, não havia muito tempo que vivia naquela casa e já tinha dúvidas. Foi então que perguntou.
Por quê?
Desculpe-me?
Por que há sempre palavras de misericórdia na sua boca?
Eu não compreendo.
Por todos os atos, você pede desculpas. Quero só saber o porquê.
Não entendeu o que eu quis dizer. Eu mesmo não entendo porque sempre peço desculpas, então não posso lhe explicar.
Talvez seja algo de antes. Antes desta casa nova, antes dessa vida que levamos.
John permaneceu calado. Ele tinha pouco mais de quatorze anos quando essa conversa o abalou. Num ato de impessoalidade, arrancou os livros da mão de sua irmã e disparou em direção a uma rua, que para Anne pareceu nunca chegar.
Venha.
Naquela rua, ele apontou um sobrado. De uma aparência não tão boa, pintura azul-clara desbotada e descascada, janelas fechadas, com grades e uma escada até a porta. O teto não era muito alto e havia grandes manchas de mofo na parede.
Ali, onde parece abandonada. Não é. Aquela é minha antiga casa, onde eu vivi até os dez anos, como você com seus pais. Certamente nunca voltarei a morar aqui, e agradeço por isso. Uma vez, eu acidentalmente derramei um pouco de leite no meu irmão mais novo. E recebi a maior surra da minha vida, passei quatro horas jogado no chão. Socos, chutes e xingamentos. Minha mãe fez isso comigo - e apontou uma cicatriz, acima do lóbulo esquerdo, escondida entre suas sobrancelhas loiras. Aquilo causou uma abertura da boca da garota, mas ela se conteve - E sinceramente, eu adorava essa casa.
Você. Tinha irmãos.
Sim. E não me pergunte, não sei onde eles estão.
Continuaram andando, John agarrado aos livros, sem olhar sequer aos lados e Anne, com as mãos nos bolsos de seu jeans velho, sentindo o vento frio no rosto e no peito. Pensou que ficaria resfriada, mas aquilo valia a pena. Ah, se valia.
Seguindo reto, até o fim da Rua do Crespúsculo, como denominou Anne, já que aquilo mais lhe parecia o fim e o começo mesclados entre si, John virou à direita e andaram por uns seis minutos. Uma eternidade para a curiosidade.
Pararam. Estavam na esquina de uma grande avenida, e no outro lado da rua, Anne viu um grande prédio.
Aqui é onde eu fiquei seis meses antes de a Srª Mannes me adotar. Eu passei os melhores tempos aqui, descobri que existe o carinho. Descobri também que banhos são bons, sua porquinha - tocou e esfregou o cabelo marrom-dourado da irmã -, aprendi também que depois de tanta coisa, eu ainda tenho um coração.
Rindo, os dois abaixaram a cabeça. Impressionantemente, ele continuou a andar reto na avenida, e a garota teve de apertar seu passo, já que ficou para trás pensando que o tour havia acabado.
Nunca tinha passado por aquelas ruas de Achelo, sentiu-se ameaçada. A cada passo, suas mãos cavavam mais fundo nos bolsos, o vento quase furava seu coração e sua mente se desdobrava tentando descobrir pistas de onde estavam indo.
Passaram pela única árvore da avenida, o que intrigou mais a menina e, logo depois dela, viraram à direita numa viela escura e com grades no final dela, pretas e que lhe eram muito inóspitas.
Mas que drog...
Uma interrupção quase grosseira tomou-lhe a fala.
Eu não deveria te mostrar isso, mas vou. Se é grande o suficiente, não sei, talvez cresça com o que eu te disser agora.
O olhar fime quase a assustou. De trás de um latão de lixo, algo se moveu e a assustou tanto quanto as palavras do irmão. Sim, ela estava com medo. O algo se levantou e mostrou uma aparência muito descuidada, literalmente. Parecia um mendigo, mas levava pacotes na mão, ela não desconfiou do que era.
Hoje não, eu não vim aqui por você.
As palavras soaram para ela como uma expulsão, mas o mendigo não foi embora. Aproximou-se deles e nesse momento, o frio na barriga de Anne pareceu unir-se com o vento e arrancar o coração de seu peito por alguns segundos, devolvendo-o aos solavancos.
John...
Foi a única coisa que disse antes dele empurrá-la para atrás de seu ombro esquerdo, e, não vendo mais seu olhar, agradeceu a tudo. De algum modo ela se sentia protegida ali, mesmo o irmão sendo metade do homem.
Eu já disse, deixe-nos. Não me importo com o que quer, não lhe devo mais nada.
Eu não quero nada. Só estava avaliando o que a verdade fez com você.
Aproximou-se tanto dele, rosto quase encostando um no outro que Anne suspirou. E foi a pior coisa que podia fazer.
Veja só - deu um salto de modo que ultrapassou a guarda de John e parou ao lado com Anne.
Anne mantinha o olhar focado em toda magreza daquele rapaz, descobriu que não era um homem porque vestia uma camiseta do Velvelt Revolver, mas era rasgada e havia visto o jeans na vitrine da loja que tinha sido recentemente atacada. E o cabelo, escuro como noite sem lua, deduziu logo que ele não passava de dezoito anos, no máximo.
Trouxe cliente nova.
E o riso no seu rosto tornou-se malévolo. Vendo a maliciosidade, Anne não quis ver mais nada, fechou os olhos e apertou mais o braço esquerdo da blusa do irmão, como se desejasse morrer ali, mas junto com o que a protegeu.
É muito difícil entender que não há nada que eu quero de você?
As palavras caíram no rapaz como chumbo na água. Anne abriu os olhos. A expressão e a postura mudaram, ergueu-se como um alfa, o sorriso malicioso saiu do rosto e deu um lugar a um cerrar dos dentes por debaixo dos lábios cor de carmim desbotados, e o olhar terno se transformou num ódio sem igual.
Mas logo, a expressão se transformou, novamente. Agora, ele era um zombeteiro, ria de Jones e estava explícito que era uma piada. Anne continuava sem saber o por quê.
Sim, você pagou sua dívida - e caiu numa gargalhada tão intensa que a fez dizer bem baixinho, as palavras que só seu irmão ouviu.
Filho da puta.
Então, ele saiu andando pela parte do beco em que havia saída. John, com olhar e modos de derrotado, segurou nos ombros da menina e a olhou firmemente nos olhos. Fez mal, a garota tremia, pelo medo e pelo frio, suas pernas, bambas e de seus olhos, quase escaparam lágrimas.
Eu disse, aqui não é um bom lugar - e fez a garota firmar os pés no chão - Foi aqui que eu cresci, durante seis meses, depois da surra. Esse cara chama-se King, ele vende as melhores drogas da região. Ele me fez pagar um preço alto pelas que eu consumia. Não sei se imagina o que é, mas eu não irei lhe dizer. já passou bastante coisa hoje.
Do rosto de Anne escorregaram lágrimas. Por vários motivos, frio, fome, cansaço, medo, alívio, e ela sabia como o irmão pagou ao traficante. Constantemente, ela ouvia tudo que o irmão dizia durante os pesadelos e, um dia, foi a uma clínica médica com o irmão e a mãe. Os pesadelos pararam desde então, e, ela descobriu porque seus primeiros lençóis tinham manchas de sangue que não saíam.
Eu... Desculpe-me.
Ele já havia andado uns quatro metros na frente dela, para sair do beco e virou-se turvamente, Anne quase não percebeu.
Não peça desculpas. Não lembra o motivo disso tudo?
Um golpe de vento no seu rosto, teve de tirar o cabelo dos lábios antes de dizer algo. Havia alguma coisa naquela situação que a mantinha entretida, mesmo que estivesse quase a ponto de ser engolida por sua própria mente.
Estou lhe acompanhando.
Andaram. E andaram muito até chegar em casa, estavam do outro lado de Achelo e Anne apenas sentia os socos de vento, até que o irmão, vendo-a tremer, passou o braço por seus ombros. Até aquele momento, Anne não havia percebido o quão quente ele estava. E como era confortável a sensação de segurança.

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