sábado, 3 de julho de 2010

O estado animado de espírito

Johnny chegou estupidamente sorridente em casa, junto com Anne. Era junho de 1983, o diálogo que havia passado era esse:
- John... Queria te contar uma coisa - abaixou a cabeça, incrivelmente, saiu um riso de seus doces lábios juvenis.
- Pois conte - seus olhos mantiveram-se vidrados à rua, alguma coisa havia prendido sua atenção.
- Eu não sei como dizer... Lembra-se do Alex? - levantou o rosto sugestivamente.
- O de cabelo preto, olhos claro, não é? O que te persegue sempre - finalmente a face do irmão havia se voltado a ela. Sentiu-se aliviada, conseguira prender atenção dele, só lhe faltava a coragem.
- Nos beijamos - os tropeços nas palavras a levaram a dizer isso em voz quase inaudível, o queixo voltou ao peito, junto aos livros e não conteve o sorriso.
- Tem certeza? - o tom de voz não demonstrava brincadeira.
- Como? - o sorriso não era mais parte de sua expressão. A indignação, sim.
- Eu apenas quero saber se tem certeza disso, se não foi apenas uma beijoca normal, acalme-se.
- Se estou lhe contando, é porque é verdade. Aprendi muito e não seria besta de lhe dizer que dei um estalo em alguém - a raiva pairou por seus olhos, e foi embora - Desculpe, eu o beijei sim, John.
- Fico feliz - uma das raras vezes que a satisfação tomou conta de Jones. Isso deixou Anne com um gosto de missão cumprida, não sabia explicar o por que.
Mas todos sabiam que era porque naquela coisa que chamamos de vida, poucos foram os momentos de alegria de John. E Anne sentiu-se uma santa por ter feito que a mente de John se afastasse das desgraças e fosse um pouco calma. Descobriu isso alguns anos depois.
Então ali estavam, atravessando a porta de entrada com rostos animadores e, por pouco, não se abraçaram. O momento de contentamento não foi quebrado à noite, nem com o pouco jantar, nem com uma cena de Peter, nem com as lições de casa. Anne sequer lembrava-se dos detalhes, mas decidiu contar ao irmão o que sabia.
- Apenas fiz - riu muito durante a noite toda, esse foi um dos momentos - Eu gostaria de poder explicar, mas foi bom. Na verdade, foi diferente, estranho e óbvio. Claro que sabe que estou feliz John!
- Parabéns irmã, incrivelmente beijei na mesma idade que você. Espero que você e o garoto se saiam bem, eu realmente desejo-lhes boas novas - uma batida nas costas e a risada dos dois em seguida.
Nessa mesma noite, os três irmãos ganharam casacos novos. O inverno começava a ficar rigoroso e a mãe tinha alguns tecidos sobrando, já que comprava muitos para as remessas de trabalho de junho e julho, os meses mais frios. Peter foi o primeiro a receber, estava até num pacote, para a felicidade dele, era uma jaqueta marrom, com detalhes dos zíperes e dos botões dourados, uma cópia da famosa da época; Peter sentiu-se extremamente superior, exibiu-se até a hora de deitarem-se. Anne e John não se preocuparam, sabiam que receberiam mais tarde. E um pouco depois de Peter dormir, foram chamados à sala de estar.
- Ainda bem que vocês entendem, eu agradeço muito por ter vocês dois - o sorriso cansado da mãe ajudava muito naquelas situações - Está aqui.
Um pacote foi entregue a cada irmão, agradeceram à mãe e tomaram cuidado para não rasgar o plástico que envolvia os agasalhos, poderia ser usado depois. O de John, era um bem roqueiro, imitava couro, como o do irmão mais velho, mas os detalhes eram prateados e tinha uma gola alta que deixou o garoto extasiado.
A jaqueta de Anne merecia mais atenção. Ao abrir o pacote, sua boca se abriu. Era de um vermelho sangue, ácido, quase enferrujado, que a deixava com cara de fã de The Runaways. Nos braços, havia botões, que a permitiam levantar a manga e assim, expressar o descaso com as roupas, que mostrava quando as cortava. A gola já estava levantada, havia botões nela também, como no final da jaqueta, na barriga, o que permitia abotoar ou não. Ah, e os bolsos. Os mais confortáveiis que Anne já vestiu, eram logo abaixo dos poucos seios que tinha. O contraste dos botões e zíperes pretos com aquele rubor a deixou sem palavras. Como uma simples peça de roupa podia animar-lhe tanto? Havia decidido que tomaria conta daquela jaqueta como tomava conta de sua própria vida, até melhor. E a escondeu no colchão, muito bem dobrada, só dormiu depois de ter certeza de que ninguém a viu colocando-a lá.

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