quinta-feira, 8 de julho de 2010

Os deveres de uma rainha

Era a única garota do grupo e era tratada com um respeito que nunca se vira desde que existiam as freedom. Como era a única a não ser convidada, nem era penetra, até na escola as outras meninas tentavam amizade com ela, porque ela conseguia meninos, drogas e desculpas muito fácil, era como uma rainha, e gostava muito desta denominação.
Já era tarde numa noite de maio, e Anne estava prestes a voltar para casa. Entretidas em outra dimensão, Stelle entrançava o cabelo de Anne e as duas riam sem motivos. Em poucos minutos de risada e entrançamento, Stelle virou-se frente a frente à garota e fitou-a por um tempo, sem expressão nem gestos, o que deixou Anne complexada. Em segundos, todos haviam de voltado até as duas e uma roda havia se formado, Stelle beijava Anne calorosamente, e ela correpondia, de um modo muito mais sujo e masculino, o que entreteu a última meia hora da festa. Excepcionalmente, depois de se beijarem, Anne não avançou, foi Stelle que passeou as mãos por Anne e beijou-a até a barriga, no momento em que Alex agarrou Anne e a tirou da cena de que todos estavam participando, mental ou fisicamente.
- Vamos.
O puxão fez o seu ombro esquerdo estralar, já que a altura do sofá em que se encontravam e a altura de Alex eram muito diferentes, sem contar a força do amigo. Anne compreendeu o que Alex sentia e como estava fora de si, discutiu, mesmo que não houvesse sentido algum.
- Não tem de cuidar de mim - a mão direita arranhando a do amigo, ela gostava daquilo, a dor do aperto, mas tinha de atuar.
- Se eu não fizer quem faz? Você? - riu ironicamente.
- Eu não preciso de você! - não gritou, exclamou tão fortemente e em voz tão inalterada que Alex quase se convenceu de que ela estava sã, logo retirou a suspeita - Eu quero tudo que há de bom, e se eu posso ter, esqueça-me, não me mudará.
- Não é isso que eu quero, não vou perder meu tempo, - soltou seu braço e pegou em seu pulso - receio que daqui vinte minutos sua mãe acorde, quer levar outra bronca? Seria muito para três dias.
Acabavam de entrar na Rua Edis, a rua da casa de Anne, que saiu correndo, mas foi presa pela mão de Alex em seu pulso. Mas que droga ele estava fazendo? Como ele poderia prendê-la se haviam apenas vinte minutos para ela entrar em casa, subir, trocar-se e esconder as roupas? E o mais importante, teria de fazer isso sem acordar ninguém. Alex estava totalmente fora de si, Anne pensou.
Mas não era isso, ele tinha exata noção, havia ligado para Jemima e dito que Anne havia dormido em sua casa, porque ficaram estudando até tarde e, como Jemima gostava muito de Alex, não se importou. Alex prometeu que levaria Anne à escola e passaria para deixá-la pegar roupas novas em sua casa meia-hora depois que ela acordasse. Como se houvesse dormido.
Alex explicou tudo à Anne que se sentiu burra, mesmo não se lembrando depois.
- Você não me odeia, então? - o rosto dele era uma incógnita, por isso Anne perguntou cautelosamente.
- Não, Anne - calmo, respeitoso, no mesmo ritmo da caminhada.
Anne não sabia o que dizer. Foi uma tola, uma criança e tudo que queria era se desculpar, mas, como John, Alex não aceitava desculpas, ele gostava muito de Anne para submetê-la a isso. Dez metros para chegar à casa de Alex, Anne para. Olha para seus braços, as frases e furos, olha para Alex.
- Você sabe, eu não controlo mais - e lágrimas desceram pelas maçãs de seu rosto, mas sem soluços, lamentos a mais ou gemidos. Somente, lágrimas.
Alex olhou impressionado, em algum lugar de Anne, havia arrependimento e de seus olhos, incrivelmente, saíam lágrimas. E agora, quem estava sem fala era ele. Por um momento, ele desejou que o Sol não estivesse raiando e que ali eles pudesem ficar sentados, sem que ninguém atrapalhasse um simples abraço. Afinal, o que eles tinham juntos era um afeto imenso, eles eram melhores amigos, descobriam coisas novas juntos e sentiam-se parte um do outro, e naquele momento, tudo isso foi testado.
Um toque leve nas bochechas dela, o polegar dele tentando consertar tudo que não havia quebrado ainda, uma inclinação ligeira e um beijo. O beijo foi como se fosse o primeiro dos dois, um recomeço para a amizade, que teria muito mais do que isso. O choro cessou e eles ficaram ali, a poucos metros de distância da casa que acolheria Anne, com o Sol nascendo e o carinho exalando. O compungir dela e dele sumiram e assumiram a forma de amor mais puro que os dois jamais provarão novamente, uma forma que não era explícita nem os intimidou, a forma de amor que os deixou aliviados de estarem juntos.
O beijo também cessou, e sorrisos leves tomaram o rosto de cada um. A mão de Alex passou do pulso para a palma de Anne e andaram até a casa dela, espaçadamente e refletindo sobre tudo. Quando chegaram, Jemima os recebeu bem, Anne trocou de roupa em seu quarto para mais um dia de frio em Achelo enquanto Alex a esperava na mesa da cozinha, com um copo de café.
Anne vestiu um jeans escuro com um suéter braco por baixo de um preto, juntou os cabelos num rabo com um elástico e sequer trocou de sapatos, lavou o rosto, as mãos e o pescoço, escovou seus dentes e desceu o mais rápido possível para juntar-se a Alex. Pegou um copo velho, colocou café, juntou os materiais e saiu.
- Vou mais cedo mãe, quero estudar para umas provas - e saiu sem ouvir resposta.
Andaram de mãos dadas até a escola, e lá, sentaram-se e Anne, mais sóbria, começou:
- Eu não vou pedir desculpas, você fez o que deveria, obrigada. Acho que o respeito é mútuo então, o que aconteceu ontem, antes do final, não aconteceu, tudo bem? - ela reprovava a si mesma na frase antes da que a fez acordar, mas, não haveria modo nenhum de pedir desculpas. Tirou essa palavra do vocabulário há muito tempo.
- Só quero que fique bem, importo-me contigo. Não me decepcione outra vez, dói. Mas não de um modo bom, de um modo monstruoso, que você nunca conhecerá - não sentiu-se ofendida, mas foi como um insulto à ela. Ele mostrou tudo que ela tinha medo: cuidado.
Ele gostava dela o suficiente para levar uma bronca da mãe por ter passado a noite fora mas, o que fazer? Em uma semana ela não teria mais os seus inocentes treze anos e sim, quatorze como ele. Então, estariam livres, na mesma classe da escola, na mesma faixa etária e com pais que os queriam juntos. Anne tinha medo disso. Tinha medo de quaisquer outras intenções dele.

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