sábado, 3 de julho de 2010

Sedativos

Uma semana depois da felicidade toda, Anne conheceu as drogas. Não as de inalar, mas as de injetar e os cigarros. Ia à festas de noite, quando enganava os pais e, lá, consumia todas que podia. Até chegar em casa, passavam-se as oito horas de sono e como estava agitada demais, dormia apenas à tarde, depois da volta da escola.
Johnny notou seu comportamento novo e supostamente, foi conversar com ela.
- Qualquer coisa à qual esteja se envolvendo, abdique - o olhar era tenso, rígido, mas cauteloso.
- Desculpe-me? - se havia uma coisa que sabia fazer era mentir. E fez jus à sua habilidade.
- Eu não sou bobo, Anne. Mas a escolha não deixa de ser tua - a voz era mais calma, como um conselho. Não que deixava de ser um, mas, numa esperança tola, ele acreditou que aquilo faria alguma diferença. Num toque sereno, segurou a mão da garota, fazendo-a olhar diretamente aos seus olhos - Não espero que me obedeça, é só um aviso. Você sabe que tenho conhecimento, não faça disso uma coisa insignificante.
Por segundos, não mais do que isso, Anne reconheceu aquele olhar. Ela o recebera pouco tempo antes, no beco, quando estava atrás de seu irmão: o olhar do zelo. Ela realmente quis respeitar aquele olhar, a ternura em forma de ato, quis tratá-lo com toda a importância que ele a tratava, quis dizer o que sentia e chorar no ombro do irmão mais velho que lhe dava uma salvação da qual sempre se lembraria, sim, ela queria que o carinho todo que viu se manifestando naqueles olhos marrom-chocolate que via através de fios simples de cabelo, queria que aqueles simples segundos fossem revividos e salvassem sua vida. Mas agora, era tarde demais para pensar nisso.
E o momento se foi. Durante toda sua curta vida, Anne sentiu-se arrependida de não ter escutado John, e era sempre disso que lembrava a cada trago ou furo. Aquelas mãos macias envolvendo as suas até os pulsos, aquela voz doce e amadeirada, aquele olhar de proposição, a expressão de carência; carência porque era tudo aquilo de que ele não precisava, e ela insistiu no erro, mesmo sabendo que era necessário a ela mesma.
- Eu não tenho nada a dizer - seca, fria e calma, como uma boa atriz. Tanta leitura a ajudara com interpretações e, mais uma vez, pôs um de seus talentos em prática.
- Tudo bem - ele se retirou.
Ele. Se. Retirou. Deu-lhe as costas, não insistiu, não a fez jurar que não faria de novo, não a agrediu. Apenas saiu andando. Aquilo doeu mais em Anne do que todas as seringas que perfuraram sua pele naquela noite. Ela sabia lidar com tudo, entendia de tudo, compreendia até as pessoas; e fez sua escolha. Não era uma escolha muito boa, aliás, era péssima, mas foi o que ela escolheu. A decisão que tomou após uma ajuda, um bom-senso, que lhe deu o direito disso, e ela rejeitou. Era conspícuo que ali havia algo errado, mas isso ela notaria depois.
Mais tarde, com sua jaqueta no corpo, pulou a janela do quarto, como fazia sempre. Saltava pela janela e agarrava-se à jabuticabeira, descia por entre os galhos e partia em direção a qualquer outro lugar. Ela saía sempre após os pais dormirem, sabia a hora exata deles deitarem e cronometrava os minutos até que caíssem no sono.
Por meios de segurança e por esperteza dela, nunca usava a jaqueta vermelha em público. Vestia qualquer casaco velho que via em sua frente à luz do dia, mas nunca a sua jaqueta. Ela havia guardado para usar justamente em ocasiões festivas, às quais chamava de freedom. As freedom eram as festinhas secretas que havia pela vizinhança de Achelo e outras, à qual Anne sempre comparecia e consumia drogas. Como nas ruas em que passava ainda era conhecida, usava o cabelo preso e a jaqueta, um jeans que havia tingido de preto, All Star e a primeira camiseta que encontrasse, assim, se algum vizinho a visse, pensaria que era apenas mais uma vicciada, o que não deixava de ser verdade.
Passos longos e rápidos, bolsos a ponto de rasgar, cigarro nos dedos da mão direita e postura curvada, de modo que não conseguissem ver seu rosto. Era como definia a si mesma andando pelas ruas de Achelo, numa noite em que refletiu sobre sua vida até aquele momento, poucas semanas depois de começar a se sedar.
A definição era essa: sedação. Nunca vira como uma coisa ruim, que a mataria e lhe deixaria totalmene dependente; pensava nas drogas como em remédios calmantes, que a levavam para lugares aos quais ela nunca tinha visitado. Lugares que a acalmavam, como sucos de maracujá; lugares que a levavam ao delírio, ao riso, com tantas cores e formas; lugares que eram inimagináveis e soavam como canções. Canções que a faziam sentir-se livre de toda a pressão que sofria quando estava na escola, de todas as brigas em casa, de toda a timidez de Alex. Se sentia uma garota rica viajando pelos mundos, pelas galáxias e pelas constelações; conversava consigo mesma e se sentia incrivelmente coerente, era uma das coisas que a consagravam como uma dependente louca e como uma viciada feliz.
Em uma dessas viagens, cortou seu próprio cabelo com uma navalha, por pouco não arrancou um pedaço de seu nariz; acabou voltando para casa sem a jaqueta no tronco, mas na cintura, junto com os braços que nunca se lembrou de quem eram e também com um violão, que aprendera a toca com alguns amigos e escondia no sótão, onde ninguém podia ver.
Conseguir as drogas era, relativamente, fácil. Normalmente, seduzia qualquer garoto com uma higiene e beleza razoável e os convencia a "experimentar" com ela; nunca achou muito difícil, era dotada de beleza

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