segunda-feira, 20 de junho de 2011

III

Surpreendentemente, dessa vez ela não chorou. Soube no exato momento que deixar escorrer a angústia seria o erro, e talvez esteja no caminho certo (conta sua mente) para o acordo entre a alma e o corpo. Só talvez.
Porém, não resta muita coisa de valor. Apenas algumas lembranças vazias de abraços vagos, remédios demais na caixinha do banheiro e lições aprendidas, além da vontade imensa do pecado. Essa energia louca que vem do nada e toma as ideias, jogando deveres no lixo e expulsando rancores recém-chegados na felizarda. São tardias, a cura e a consequência.
O fogo dançando por entre os atos, tão ardente e atraente. Ela cedeu, é verdade. Ela cederá novamente, é verdade. Mas hoje não. Além de ter seu tempo diminuído no último mês, encontrou um trago de vida na bituca da última droga que achou. E ela encontrou o amor, que queima mais rápido que papel por entre o cérebro e as ações.
Dessa vez, não sorriu, não viu motivo. Vê que, ao mesmo tempo em que se entrega à vida, perde o sabor de uma morte lenta e justa. Lhe parece até pecado tombar-se tanto na direção do ar, lembra-se dos tempos em que se desafiava à prender a respiração. De um rápido afogamento real na aula de natação do colégio particular. É sempre tão rápido.
E é claro, pode ser a garota do sorriso quebrado e constante, a menina dos olhos de chocolate e cabelo de criança; e se transformar tanto no outro segundo que as pequenas partes de todo seu corpo, perdem a forma. A sua modelagem inicial se torna perdida, mas logo a reencontra, quando busca força sozinha.
Estar sem recursos é ver que não há ninguém além de você para te salvar. É contribuir para sua derrota, ao mesmo tempo em que torce para a vitória; ter de usar o remédio e reinar em ti a dosagem do veneno; sorrir e comentar problemas rotineiros com a alegria de um adolescente ao mesmo tempo em que não tem aonde se agarrar dentro de si mesmo. Uma vez que você não existe mais, lá se foi mais uma chance de viver.
Passa-se à subsistência por meio de miséria de calor, de sabor. Na realidade, não tem tanto gosto assim, só distrai, mantém a luz do pisca alerta acesa, mesmo que o motor já tenha fundido. E, mais uma vez, ela maravilha mostrando a todos o quão diferente pode ser.
Noção de mudança todos têm. Ela tem necessidade, anseia por isso. Não como nas ânsias de retirar o que considera ruins - isso já é automático -, mas sim, como se fosse só preciso e presente. Mesmo que não a queira, ela estará lá. A sua doce verdade e sua drástica mudança.
Mesmo sendo dramático, é assim que é visto. Mesmo sendo complicado, é simples quando feito. Mesmo que tenha todos os recursos - coragem e tempo -, ela ainda encontrará maneira de fugir de si mesma. Foi sempre assim que lutou, contra o mundo e, primeiramente, contra si. Não é difícil depois de um tempo. Ela aprendeu a lidar com as guerras dentro de si mesma tão bem que hoje é uma das melhores pessoas a quem contatam quando precisam de tréguas consigo mesmos.

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